Alguém que me lê e eu não vejo.

2007/10/31


O meu pai
deixa-me ir
para o violino.

Violino, violino,
violino, violino.

Eu.

Poema de Rita Sá.

2007/10/23

Quase tudo o que fizermos será insignificante,
mas é muito importante que o façamos.


M. Gandhi

Não demores o teu sentir nesse desgosto!

Passa tudo pelo corrimão abaixo da vida,

não percas esse tempo adjacente à tristeza,

urge voltares ao sorriso de vidro fosco!



Vem, à aldeia dos abraços transparentes

que só não vês porque te finges cego!



Não te damos o tempo que precisas para chorar,

porque lágrimas são más e as nossas mãos de cristal são boas.

Porque nós somos as horas e tu os minutos,

não fiques a limpar esse azul baço,

não precisas de levantar as rugas das tuas pálpebras.



Eu...

Mas eu... quero ser azul e ser baço! Só não o quero ser só.







2007/10/17


Este esquema representa o meu cérebro e as suas vivências nas próximas 24 horas.

2007/10/14

This is it.


2007/10/09



in http://postsecret.blogspot.com/

2007/10/08

Nunca mais me esqueci disto, esta deve ser uma canção tradicional ou de embalar. Julgo. Também poderá ser inventada, ou extremamente conhecida e eu não estar a reconhecer. Se vos fizer lembrar alguma coisa avisem-me, por favor.

Descansa meu querido descansa,
não te quero despertar,
vou para a cozinha trabalhando,
com vontade de chorar.

Irremediavelmente, quieta no meu canto, ouço ao longe a voz crédula, entoar um discurso já há muito iniciado:



Como quando o silêncio se funde com as palavras, sabes? Aquele silêncio que se mistura na sonoridade das palavras, que está por detrás de alguma sílaba mas não sabemos qual?

E quando o silêncio faz imenso barulho, também sabes? Quando a cama já tardia e o repouso aparente se esvaem na certeza do ruído ausente?

Hum… como um silêncio sepulcral encoberto por sons ensurdecedores...

Já sabes?

Ainda não.

Como quando um pano semi-transparente de seda plana sob uma água agitada e finalmente cai, sabes? Cai e não se molha todo duma vez. Molha-se aos poucos, não imerge, permanece sempre com a ameaça eminente de se perder para sempre no fundo oceano. Flutua indefinidamente. Pesando-lhe o facto de ser mais leve do que a água, percebes?

Não. Não compreendo.


Como quando roubas a atenção ao actor principal com um brutal ataque de tosse? E a tua saída se impõe? Mas tu não sais porque esperas, escusadamente, pelo fim de uma tosse que não cessa, evitas a saída inevitável?

Mas nesse caso talvez aguentasse a tosse até ao fim da peça.

E se não aguentasses? E se fosse impossível?

Saía.

Mas afinal o que se passa contigo?

Acho que pensas que fui embora, mas ainda aqui estou.


Como um beijo depois da despedida? Como um segundo de hidratação antes do deserto? Como duas mãos unidas por debaixo da mesa?

Não.

Como o perigo, debaixo da porta, esperando que escorregues no pavimento encerado? Esse mesmo, disfarçado de lantejoulas, para que não passe despercebido e que desse modo ninguém o receie?

Também não.

Então como?

Como um corpo gelado e imóvel, no qual está colado um cartaz com a palavra “Inviável” escrita. Como um corpo, que tem espírito, mas não consegue mostrar.

Ah! Então fica bem. Bem, como o mendigo, que dormiu na rua no dia de sol depois do dia de chuva.

Obrigada. Obrigada, como a pessoa de coração dilacerado.

2007/10/06

Era uma rapariga que gostava muito de escrever, mas raramente se satisfazia com o que escrevia.
Certa vez, em vez de escrever mais um dos seus poemas, em vez de acrescentar linhas ao eterno romance, em vez de mais uma história, escreveu o que mais gostara de aprender durante o seu tempo de vida. Tinha consciência de que não escrevera nada de especial e muito menos de original, mas que a fez sentir particularmente bem e viva. Passo a transcrever:

"Estas são as lições que mais gostei de aprender, sem qualquer ordem, senão a ordem através da qual elas fluíram através do pensamento:

Primeiro aprendi que gostar de alguém, é gostar de uma pessoa tal como ela é e não apesar do que ela possa ser.

A segunda grande lição é que as pessoas não mudam senão quando realmente assim o entendem.

A terceira lição é que sempre que esperei muito tive pouco, e sempre que esperei pouco tive muito. (sim, sim, eu sei que Pessoa já o tinha escrito. Este é, portanto, plágio é da pior espécie mesmo, duplo plágio: de escrita e de vivência)

A quarta é que sou muito melhor a ser o que sou do que a ser o que pareço ou quero parecer.

A quinta é que a solidão não é assim tão reconfortante como julgava e que um abraço vale uma infinidade de linhas escritas, um céu cheio de estrelas, música toda a noite e a poeira a assentar com a chuva de Verão.

Ainda aprendi que sempre que me enganei a mim mesma custou muito mais saber a verdade.

Aprendi que a modéstia é uma das características que mais aprecio nos outros e uma das que mais detesto em mim, simultaneamente.

Aprendi que nem toda a gente vai gostar de mim, mas que alguém há-de sobrar.~

Aprendi que as pessoas do autocarro ouvem o que falo com a pessoa ao lado, tal como eu as ouço, por vezes.

Aprendi que há mesmo pessoas extraordinárias, uma delas foi a que me deu à luz.

Aprendi a gostar de mim só para que tu, também gostasses e eventualmente hei-de apanhar-lhe o jeito.

Também aprendi que às vezes basta um sorriso alheio para me sentir viva.

Aprendi que ainda não aprendi a deixar as pessoas acabar todas as suas frases.

Aprendi que tudo que aprendi pode estar errado, mas o que sinto não.

Aprendi, por fim, que ainda falta muito para aprender."

2007/10/02

Alegro ma non troppo

O meu pensamento encontra as tuas mãos a envolver o molhado dos teus olhos. Sei apenas que, enquanto os encontrar, conseguirei sempre rasgar o meu sorriso cor de nada, transparente como a felicidade inesperada.

Pena a minha inspiração feliz se orquestrar com o suspiro que teme o barulho de beijos enrugados pelo tempo, o suspiro que teme a tua partida.

Quando fores, NÃO vás.

2007/09/29

Nascimento último

Como se não tivesse substância e de membros apagados.
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono,germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite,lentamente,sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono,na última nudez,
respiraria ao ritmo do vento,na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que fui,o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser,os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.


António Ramos Rosa
In: No Calcanhar do Vento, 1987

2007/09/26

Hoje sinto-me fraca por não saber como se escreve este sentimento de fraqueza. É quase macabra a quantidade de palavras bonitas que se podem usar para descrever algo tão vil.
Resta-me, portanto, a simplicidade das tábuas que suportam o meu colchão, que no Ikea se vendem separadas do resto da cama. Eu nasci separada das protecções laterais, de mim tudo jorra: bom e mau e o que está no meio e para lá disso. Nasci para suportar uma loucura que por aí anda espalhada e que é minha.
Mas amanhã creio que vou comprar um colchão feito de lata e aninhar-me no seu aconchego, dando-lhe a trivialidade do meu sustento. Espero que seja suficiente para arrancar um sorriso às suas molas, que a rectidão e que à simplicidade deste conjunto das minhas tábuas se lhe subtraia a fraqueza.

2007/09/25

Era uma rapariga que um dia, alguém, considerou eloquente. Todos os seus passos eram distintos, alinhados com uma ordem quase terna. Um dia, enquanto deslizava pela calçada de mármore, um os seus pés esguios por breves instantes enclausurado no interstício o pavimento alinhou-a de forma violenta com os carris do eléctrico. Foi uma diferença e segundos que lhe salvou as pernas da dilaceração.

Recuperou o pé do hiato imprevisto. Esgueirou-se por entre a multidão e nunca mais foi vista. Ninguém mais a viu, nem foi considerada novamente eloquente. Contudo, todos os dias passava na mesma calçada, prevenia-se das fendas com sapatos de homem e da erosão da elegância com um fato largo. Ocultou a beleza dos seus movimentos com a velocidade dos passos largos.

Assim continuou a chegar todos os dias à maresia rochosa do estuário: sem que ninguém a visse. Percebera no dia da queda que a invisibilidade lhe daria asas.e as suas asas levavam-na em direcção a tudo que sonhava, sem que nenhuma palavra precisasse ser dita.

2007/09/24

Fim do dia, eu, um poema em linha recta. Somadas a esta realidade algumas palavras que me chegaram. Um longo e lânguido suspiro, ansiava o seu regresso.

2007/09/22


MANISFESTO (anti) ALGO DE MIM
Hoje acusaram-me de fazer muitos filmes. Não foi a primeira fez que o fizeram, mais do que uma pessoa. Também já me acusaram de ser egocêntrica e de levar tudo demasiado a peito. E de forma a cultivar esse egocentrismo vou escrever mais uma vez a falar de mim.

Sim, é verdade, por vezes dizem-se coisas sem segunda intenção sem significado nem significância. Por vezes dizem-me coisas para que eu as modifique e não para me colocarem em causa. E muitas vezes sinto-me atacada e sem paciência. Muitas vezes, muitas, interpreto determinadas frases como criticas.

Como daquela vez em que me disseste que não beber com os amigos era mau devido ao facto de ser um acto social. Eu interpretei isso como sendo tu a chamares-me anti-social. Sim, vejo aí o exagero da minha parte. Ou quando a minha chefe me questionou sobre o meu mapa poder estar incorrecto, quando eu sabia que não o estava, respondi-lhe imediatamente que não sou maluca para inventar mapas. Quando, no fundo, ela queria apenas certificar-se de que estava correcto.

Por todas estas particularidades que acabam por se tornar generalidades, peço desculpa ao que sofrem com ela. Desculpem aqueles que, injustamente, “sofreram” os meus rompantes defensivos.

À parte disso, futuramente, estes meus sentimentos serão pensados até desaparecerem. Porque realmente existem sentimentos que não se devem manifestar! Assim terá de ser se quiser sobreviver a todos os níveis, incluindo o da minha própria sanidade mental.
Está, assim, dito.

2007/09/19


E hoje foi aqui que estive a passear só. As coisas assim sabem a menos!

2007/09/17

Está frio para não usar mangas.

Pela janela ousa o latejar dos veículos, dos seus motores com combustão inexorável.

E os violinos em surdina, gritam anunciando a sua derrota.

Um canhão dispara e resplandecem, banhos de sangue castanho em forma de cítara.

Os ouvidos cegam a boca de quem sente os tiros.

Tiros são limpos, distantes, poemas e filosofia.

Morte é música, pintura e romantismo.

Eu sou pólen infértil e sem destino.

Tudo a uma só imagem, a um só segundo, a uma só loucura.

Raramente falo, senão de sentimentos, e raramente uso outro tom que não o confessional. Mas hoje apetece-me falar de algo que vi e ouvi.

Esta imagem composta por três quadros da Paula Rego intitulados “Pillowman”, foi-me dada a conhecer pela menina tóxica (que de tóxica não tem nada). Falou-me destas telas enquanto conversávamos sobre a peça do mesmo título, escrita por Martin McDonagh.

No meu imaginário, o homem almofada é cinzento mais claro, com a cabeça maior e mais redonda. A roupa do meu homem almofada é azul clara e o seu sorriso ainda mais reluzente. Eu sei que Pablo Neruda adorava azul porque azul era a cor da felicidade. Mas para mim o suicídio infantil é azul claro, a profissão do homem almofada tem um uniforme azul claro e a ausência de céu é tão azul e tão clara como a presença de céu e sol. A vida do homem almofada era o sofrimento, e a sua remoção das vidas pelo suicídio prévio, um suicídio preventivo da dor. O homem almofada como o mensageiro da dor. A sua história tocou-me como já há muito este coração tão era tocado. E a recusa de Michael perante o homem almofada, a sua aceitação de uma vida de sofrimento em nome da prevalência das histórias do seu irmão. A renúncia de Michael em nome da prevalência do próprio homem almofada. Um homem feito de almofada, fofinho, para a vida doer menos, de um modo tragicamente azul.

E Paula Rego exímia a transmitir a dor com as suas cores. Cores diferentes, mas a mesma dor.

2007/09/16

Afinal agora tive saudades das minhas bolinhas!

Ana igual a si mesma!

2007/09/10

Novo visual, as bolinhas começavam a cansar-me! :)