Alguém que me lê e eu não vejo.

2007/05/12

Admiro através da janela o rasto fino do dia, tão acanhado quase como se não tivesse sido um dia, talvez mais um sopro de horas, um adicionar de tempo somente. É belo, sim: a luz mingua paulatinamente, este silêncio pautado pelas aves harpejando melodias compostas, sinonimas de vento ameno e cor-de-rosa no horizonte. Repleta de beleza e tão cheio de nada para acrescentar ao mundo, senão trivialidades.
Assim terminará a minha vida, farta de beleza vaga arredada a um canto, e sem nada acrescentar a nada, um nada profundo. Não era minha intenção despedir-me cheia de lágrimas vazias. Não era. Queria despedir-me com um sorriso, com um lenço na mão, cheio de sal absorvido. Tencionava despedir-me sem vontade de despedidas. Dispensar a palavra adeus sem vontade de a dispensar. Não aconteceu desse modo. Embarco numa auto-distituição. Que afinal talvez seja aquilo que não “sobremereci” neste percurso: o direito assentido de partir.

2007/05/06

Reencontro

Umas depois das outras, as letras, as palavras vão-se compondo. Tento encontrar alguma ordem, o melhor local, mas quando elas saem directamente da corrente sanguínea para as teclas, acaba por desvanecer e criar um algo praticamente aleatório, reduzido em criatividade. Falta-me o tempo que ingeri entre suspiros ou lágrimas vãs, pulso os segundos azulados, ausentes, até aqui chegar descoordenada. Acerco-me deste momento, em que volto timidamente ao compasso, enlaço-o. Entorpecida, reencontro-me com o meu canto.

2007/03/25

"We cannot walk alone"


Encontrei esta imagem e decidi que tinha de pôr aqui. No caminho, lembrei-me de Martin Luther King, e da sua frase no meio de um sonho que ele teve.

2007/03/24

Toda as mulheres podem ser a mulher do poema de Ruy Belo. Todas foram a mulher do poema do Riuy Belo alguma vez. Ainda que apenas aos seus próprios olhos. Outras são ela, e não o vêem. Ficam aqui as palavras...

"Contigo aprendi coisas tão simples como
a forma de convívio com o meu cabelo ralo
e a diversa cor que há nos olhos das pessoas
Só tu me acompanhaste súbitos momentos
quando tudo ruía ao meu redor
e me sentia só e no cabo do mundo
Contigo fui cruel no dia a dia
mais que mulher tu és já a minha única viúva
Não posso dar-te mais do te dou
este molhado olhar de homem que morre
e se comove ao ver-te assim presente tão subitamente"

2007/03/23

And again...




Mais uma vez as palavras distorcidas, mais do que as escondidas, tropeçam escadas abaixo. As palavras pouco importam. O verde erguido perante azul, o cume, é mais. Será sempre mais, porque assim afirma perante as ervas. Assim as ervas acreditam que são árvores e a montanha acredita que é sol. E eu, lua nova, sob céu nublado, à espera de me rever no brilho de um olhar perdido naquele passeio junto ao rio. Somente esperando. Somente esperando.

2007/02/28

Singular. Cabelos sob a lua. Espalhada na especiosidade da cidade. Transbordante de si, evaporava-se nos seus próprios beijos. Por vezes, esgotava-se pelas ruas fora. Assobiava-se e prostrava-se, simultaneamente perante o tempo. Mais perante o tempo do que perante o espaço, o espaço não lhe servia nos pulsos. Quem a via queria ser tempo, refugiar-se na sua invisibilidade refulgente. Aconchegar-se na sua magnitude, para reter um pouco do seu olhar.

Especial, o desejo no recanto de cada ser. Ser especial. Querer ser tempo e ser espaço.

2007/02/23

O sal da língua


Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo,
não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco mais.
Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.




Para uma menina, do Eugénio de Andrade e passando por breves instantes pelas pontas dos meus dedos :)

2007/02/22

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Álvaro de Campos

2007/02/11

Sol e mundo peneirados pelas nuvens, pulverizados com gotas de água, aconchegados na mesma nota, a mesma tecla pretaum tom mais acima. Nada mais poderia ser cenário, para a minha vela ser estrela, a tua ausência sorriso e a caneta no papel a tua mão na minha.

2006/11/20

Essa náusea que sinto quando reconheço
a futilidade das minhas lágrimas.
A náusea que chega para confessar,
o meu desejo de que tudo isto se esvaia,
que desça paralelos abaixo e escorra
para o ribeiro quase tão poluído como eu.

Não estou condenada a ser eu própria, não!
Mas para onde ir se não encontro em mim aquela que deveria ser?

PERDOA-ME: não consigo ir nem ficar.

2006/11/19

Cada dia é mais evidente que partimos
Sem nenhum possível regresso no que fomos,
Cada dia as horas se despem mais do alimento:
Não há saudades nem terror que baste.


Sophia de Mello Breyner Andresen
Antologia
Círculo de Poesia
Moraes Editores
1975

2006/11/06


Incontáveis os instantes que tenho passado a respirar,
e aqueles em que quis tocar no céu,
naquele que pensava ser veludo morno.
Não, não os consigo contar, ter-lhes perdido a conta...
Assim remonto à sensação de infinito perdida,
somando-lhe os dias em que não consegui chegar-lhe,
mais aqueles em que achei que lhe toquei.

Ah meu céu amigo, essas nuvens que te encobrem,
que te aconchegam, que te abraçam,
que me fizeram deixar de poder sonhar contigo,
essas nuvens... quem me dera ser uma delas!

Talvez se se me fosse a densidade impura,
sim, se também eu fosse um fiapo intocável,
também eu seria perfeita e não sentiria
esta absorção de mim pelo mundo,
não sentiria esta ausência que grita: o vazio.

Nuvens: invejo-vos espalhadas, viajantes.
Fecho os olhos.
Evaporo-me e condenso-me em mim mesma.

2006/11/04

Quando escutares o violeta que escorre do céu, pousado nas tuas mãos, saberás. Então apenas poderei estender as minhas duas mãos e tranformar as tuas em quatro.

2006/10/30

Quando as ervas se tocam, entrelaçadas ao ritmo do vento, sabem que são feitas da mesma matéria. Ainda que não olhes para elas, lerás as ervas um dia nos meus olhos, assim que aprenda a abri-los e deixá-los tropeçar com as correntes atmoféricas.

2006/10/23

Hoje, inesperadamente, recebi um presente: Natália Correia!



Glorifiquei-te no eterno.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.

Para que desses um nome
à exactidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à humidade onde fica.

E o que acontece durante
na rapidez da descida
é a explicação da vida.

2006/10/09


Fito com o pensamento a tua imagem: a pétala branca a tocar ao de leve no teu lábio.

Pequenina e sem a tua mão a segurar a minha é assim que os meus passos se tornam mais curtos, na tua direção.

Escorre dentro de mim este sentir adstringente, a densidade de te saber não feliz.

2006/09/08

Lembrar-me-ei disto: quando a montanha voltar, com a sua supremacia enaltecida pela falsidade da luz da lua eu própia a rasgarei com as minhas unhas. Prefiro o meu vale à tua subida, que não me quer lá no topo, mas vítima da queda por ela abaixo. Não cairei novamente.

2006/09/07


- Ouvi a música que me faz lembrar de ti...
- E depois?
- Depois verti uma lágrima de saudade.
- Gostas demasiado de mim.
- A palavra demasiado não existe associada ao verbo gostar.
- Já pensaste que nunca vou gostar de ti assim.
- E na minha mão, consegues segurar?
- Às vezes com força.
- E esse às vezes pode acontecer sempre?
- Sempre.
Olho em volta branco e castanho, lisa e rugosa, a parede. Encostada a ela a cabeça fica mais leve. Choro.
- Porque choras? Era lá preciso!
- Sim era. Porque me trouxeste da lua.
- Estou cansado, já devias ter ido.
- Vou já. E não volto.
Os risos entoam. E lá fora um monstro de lágrimas, tenta esconder-se em frinchas infantis da rua. Sim também pode ser preciso chorar. As gotas da chuva continuam a rir-se, brincam em grupo, escorrem calçada abaixo.

2006/09/04

Repúdio pela palavra amor,
o mandamento dos novos tempos.

Corações desencarecerados: punição,
a pior de todas elas - desprezo.

2006/09/03

Agora

Não vou traçar, no mundo, linhas rectas.
É isto. É aquilo.
Sou só eu:
linha curva, esguia,
contornado as esquinas dos dias.
E perpetuando-me sobre os espinhos
posso ser tudo.