Alguém que me lê e eu não vejo.

2007/10/23


Não demores o teu sentir nesse desgosto!

Passa tudo pelo corrimão abaixo da vida,

não percas esse tempo adjacente à tristeza,

urge voltares ao sorriso de vidro fosco!



Vem, à aldeia dos abraços transparentes

que só não vês porque te finges cego!



Não te damos o tempo que precisas para chorar,

porque lágrimas são más e as nossas mãos de cristal são boas.

Porque nós somos as horas e tu os minutos,

não fiques a limpar esse azul baço,

não precisas de levantar as rugas das tuas pálpebras.



Eu...

Mas eu... quero ser azul e ser baço! Só não o quero ser só.







2007/10/17


Este esquema representa o meu cérebro e as suas vivências nas próximas 24 horas.

2007/10/14

This is it.


2007/10/09



in http://postsecret.blogspot.com/

2007/10/08

Nunca mais me esqueci disto, esta deve ser uma canção tradicional ou de embalar. Julgo. Também poderá ser inventada, ou extremamente conhecida e eu não estar a reconhecer. Se vos fizer lembrar alguma coisa avisem-me, por favor.

Descansa meu querido descansa,
não te quero despertar,
vou para a cozinha trabalhando,
com vontade de chorar.

Irremediavelmente, quieta no meu canto, ouço ao longe a voz crédula, entoar um discurso já há muito iniciado:



Como quando o silêncio se funde com as palavras, sabes? Aquele silêncio que se mistura na sonoridade das palavras, que está por detrás de alguma sílaba mas não sabemos qual?

E quando o silêncio faz imenso barulho, também sabes? Quando a cama já tardia e o repouso aparente se esvaem na certeza do ruído ausente?

Hum… como um silêncio sepulcral encoberto por sons ensurdecedores...

Já sabes?

Ainda não.

Como quando um pano semi-transparente de seda plana sob uma água agitada e finalmente cai, sabes? Cai e não se molha todo duma vez. Molha-se aos poucos, não imerge, permanece sempre com a ameaça eminente de se perder para sempre no fundo oceano. Flutua indefinidamente. Pesando-lhe o facto de ser mais leve do que a água, percebes?

Não. Não compreendo.


Como quando roubas a atenção ao actor principal com um brutal ataque de tosse? E a tua saída se impõe? Mas tu não sais porque esperas, escusadamente, pelo fim de uma tosse que não cessa, evitas a saída inevitável?

Mas nesse caso talvez aguentasse a tosse até ao fim da peça.

E se não aguentasses? E se fosse impossível?

Saía.

Mas afinal o que se passa contigo?

Acho que pensas que fui embora, mas ainda aqui estou.


Como um beijo depois da despedida? Como um segundo de hidratação antes do deserto? Como duas mãos unidas por debaixo da mesa?

Não.

Como o perigo, debaixo da porta, esperando que escorregues no pavimento encerado? Esse mesmo, disfarçado de lantejoulas, para que não passe despercebido e que desse modo ninguém o receie?

Também não.

Então como?

Como um corpo gelado e imóvel, no qual está colado um cartaz com a palavra “Inviável” escrita. Como um corpo, que tem espírito, mas não consegue mostrar.

Ah! Então fica bem. Bem, como o mendigo, que dormiu na rua no dia de sol depois do dia de chuva.

Obrigada. Obrigada, como a pessoa de coração dilacerado.

2007/10/06

Era uma rapariga que gostava muito de escrever, mas raramente se satisfazia com o que escrevia.
Certa vez, em vez de escrever mais um dos seus poemas, em vez de acrescentar linhas ao eterno romance, em vez de mais uma história, escreveu o que mais gostara de aprender durante o seu tempo de vida. Tinha consciência de que não escrevera nada de especial e muito menos de original, mas que a fez sentir particularmente bem e viva. Passo a transcrever:

"Estas são as lições que mais gostei de aprender, sem qualquer ordem, senão a ordem através da qual elas fluíram através do pensamento:

Primeiro aprendi que gostar de alguém, é gostar de uma pessoa tal como ela é e não apesar do que ela possa ser.

A segunda grande lição é que as pessoas não mudam senão quando realmente assim o entendem.

A terceira lição é que sempre que esperei muito tive pouco, e sempre que esperei pouco tive muito. (sim, sim, eu sei que Pessoa já o tinha escrito. Este é, portanto, plágio é da pior espécie mesmo, duplo plágio: de escrita e de vivência)

A quarta é que sou muito melhor a ser o que sou do que a ser o que pareço ou quero parecer.

A quinta é que a solidão não é assim tão reconfortante como julgava e que um abraço vale uma infinidade de linhas escritas, um céu cheio de estrelas, música toda a noite e a poeira a assentar com a chuva de Verão.

Ainda aprendi que sempre que me enganei a mim mesma custou muito mais saber a verdade.

Aprendi que a modéstia é uma das características que mais aprecio nos outros e uma das que mais detesto em mim, simultaneamente.

Aprendi que nem toda a gente vai gostar de mim, mas que alguém há-de sobrar.~

Aprendi que as pessoas do autocarro ouvem o que falo com a pessoa ao lado, tal como eu as ouço, por vezes.

Aprendi que há mesmo pessoas extraordinárias, uma delas foi a que me deu à luz.

Aprendi a gostar de mim só para que tu, também gostasses e eventualmente hei-de apanhar-lhe o jeito.

Também aprendi que às vezes basta um sorriso alheio para me sentir viva.

Aprendi que ainda não aprendi a deixar as pessoas acabar todas as suas frases.

Aprendi que tudo que aprendi pode estar errado, mas o que sinto não.

Aprendi, por fim, que ainda falta muito para aprender."

2007/10/02

Alegro ma non troppo

O meu pensamento encontra as tuas mãos a envolver o molhado dos teus olhos. Sei apenas que, enquanto os encontrar, conseguirei sempre rasgar o meu sorriso cor de nada, transparente como a felicidade inesperada.

Pena a minha inspiração feliz se orquestrar com o suspiro que teme o barulho de beijos enrugados pelo tempo, o suspiro que teme a tua partida.

Quando fores, NÃO vás.

2007/09/29

Nascimento último

Como se não tivesse substância e de membros apagados.
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono,germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite,lentamente,sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono,na última nudez,
respiraria ao ritmo do vento,na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que fui,o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser,os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.


António Ramos Rosa
In: No Calcanhar do Vento, 1987

2007/09/26

Hoje sinto-me fraca por não saber como se escreve este sentimento de fraqueza. É quase macabra a quantidade de palavras bonitas que se podem usar para descrever algo tão vil.
Resta-me, portanto, a simplicidade das tábuas que suportam o meu colchão, que no Ikea se vendem separadas do resto da cama. Eu nasci separada das protecções laterais, de mim tudo jorra: bom e mau e o que está no meio e para lá disso. Nasci para suportar uma loucura que por aí anda espalhada e que é minha.
Mas amanhã creio que vou comprar um colchão feito de lata e aninhar-me no seu aconchego, dando-lhe a trivialidade do meu sustento. Espero que seja suficiente para arrancar um sorriso às suas molas, que a rectidão e que à simplicidade deste conjunto das minhas tábuas se lhe subtraia a fraqueza.

2007/09/25

Era uma rapariga que um dia, alguém, considerou eloquente. Todos os seus passos eram distintos, alinhados com uma ordem quase terna. Um dia, enquanto deslizava pela calçada de mármore, um os seus pés esguios por breves instantes enclausurado no interstício o pavimento alinhou-a de forma violenta com os carris do eléctrico. Foi uma diferença e segundos que lhe salvou as pernas da dilaceração.

Recuperou o pé do hiato imprevisto. Esgueirou-se por entre a multidão e nunca mais foi vista. Ninguém mais a viu, nem foi considerada novamente eloquente. Contudo, todos os dias passava na mesma calçada, prevenia-se das fendas com sapatos de homem e da erosão da elegância com um fato largo. Ocultou a beleza dos seus movimentos com a velocidade dos passos largos.

Assim continuou a chegar todos os dias à maresia rochosa do estuário: sem que ninguém a visse. Percebera no dia da queda que a invisibilidade lhe daria asas.e as suas asas levavam-na em direcção a tudo que sonhava, sem que nenhuma palavra precisasse ser dita.

2007/09/24

Fim do dia, eu, um poema em linha recta. Somadas a esta realidade algumas palavras que me chegaram. Um longo e lânguido suspiro, ansiava o seu regresso.

2007/09/22


MANISFESTO (anti) ALGO DE MIM
Hoje acusaram-me de fazer muitos filmes. Não foi a primeira fez que o fizeram, mais do que uma pessoa. Também já me acusaram de ser egocêntrica e de levar tudo demasiado a peito. E de forma a cultivar esse egocentrismo vou escrever mais uma vez a falar de mim.

Sim, é verdade, por vezes dizem-se coisas sem segunda intenção sem significado nem significância. Por vezes dizem-me coisas para que eu as modifique e não para me colocarem em causa. E muitas vezes sinto-me atacada e sem paciência. Muitas vezes, muitas, interpreto determinadas frases como criticas.

Como daquela vez em que me disseste que não beber com os amigos era mau devido ao facto de ser um acto social. Eu interpretei isso como sendo tu a chamares-me anti-social. Sim, vejo aí o exagero da minha parte. Ou quando a minha chefe me questionou sobre o meu mapa poder estar incorrecto, quando eu sabia que não o estava, respondi-lhe imediatamente que não sou maluca para inventar mapas. Quando, no fundo, ela queria apenas certificar-se de que estava correcto.

Por todas estas particularidades que acabam por se tornar generalidades, peço desculpa ao que sofrem com ela. Desculpem aqueles que, injustamente, “sofreram” os meus rompantes defensivos.

À parte disso, futuramente, estes meus sentimentos serão pensados até desaparecerem. Porque realmente existem sentimentos que não se devem manifestar! Assim terá de ser se quiser sobreviver a todos os níveis, incluindo o da minha própria sanidade mental.
Está, assim, dito.

2007/09/19


E hoje foi aqui que estive a passear só. As coisas assim sabem a menos!

2007/09/17

Está frio para não usar mangas.

Pela janela ousa o latejar dos veículos, dos seus motores com combustão inexorável.

E os violinos em surdina, gritam anunciando a sua derrota.

Um canhão dispara e resplandecem, banhos de sangue castanho em forma de cítara.

Os ouvidos cegam a boca de quem sente os tiros.

Tiros são limpos, distantes, poemas e filosofia.

Morte é música, pintura e romantismo.

Eu sou pólen infértil e sem destino.

Tudo a uma só imagem, a um só segundo, a uma só loucura.

Raramente falo, senão de sentimentos, e raramente uso outro tom que não o confessional. Mas hoje apetece-me falar de algo que vi e ouvi.

Esta imagem composta por três quadros da Paula Rego intitulados “Pillowman”, foi-me dada a conhecer pela menina tóxica (que de tóxica não tem nada). Falou-me destas telas enquanto conversávamos sobre a peça do mesmo título, escrita por Martin McDonagh.

No meu imaginário, o homem almofada é cinzento mais claro, com a cabeça maior e mais redonda. A roupa do meu homem almofada é azul clara e o seu sorriso ainda mais reluzente. Eu sei que Pablo Neruda adorava azul porque azul era a cor da felicidade. Mas para mim o suicídio infantil é azul claro, a profissão do homem almofada tem um uniforme azul claro e a ausência de céu é tão azul e tão clara como a presença de céu e sol. A vida do homem almofada era o sofrimento, e a sua remoção das vidas pelo suicídio prévio, um suicídio preventivo da dor. O homem almofada como o mensageiro da dor. A sua história tocou-me como já há muito este coração tão era tocado. E a recusa de Michael perante o homem almofada, a sua aceitação de uma vida de sofrimento em nome da prevalência das histórias do seu irmão. A renúncia de Michael em nome da prevalência do próprio homem almofada. Um homem feito de almofada, fofinho, para a vida doer menos, de um modo tragicamente azul.

E Paula Rego exímia a transmitir a dor com as suas cores. Cores diferentes, mas a mesma dor.

2007/09/16

Afinal agora tive saudades das minhas bolinhas!

Ana igual a si mesma!

2007/09/10

Novo visual, as bolinhas começavam a cansar-me! :)

2007/09/09

2007/09/08

O mais belo! Não resisti!


Se eu tivesse aqui ficado, também eu teria perdido propositadamente a minha vulnerabilidade.
Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
ou metade desse intervalo, porque também há vida ...
Sou isso, enfim ...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.


Álvaro de Campos, às vezes também preciso dele e de um universo barato.

2007/09/07




You Belong in Paris



You enjoy all that life has to offer, and you can appreciate the fine tastes and sites of Paris.

You're the perfect person to wander the streets of Paris aimlessly, enjoying architecture and a crepe.

2007/09/06

Há momentos em que sinto tudo ao de leve, como se palavras, notas, fossem um sopro a tocar ao de leve na pele e a deixar um arrepio em tempo de calor. Uma sensação aprazível: uma pequena manta de tecido e brisa a envolver-me.

Não é isso que se passa quando ouça a Mercedes Sosa. Com ela é impossível sentir o morno do dia.

"Ay este azul... que é um verde também!""

Talvez... a minha eterna imagem


2007/08/27

A imagem recorrente neste blogue: a montanha. O vale presta-lhe o seu tributo diário, como nada nem ninguém jamais faria. E o vale, esse, é beijado incessantemente pelo rio. Esse rio cuja obtusidade dos ângulos não quer ser percebida, não deixando, contudo, de engrandecer e sublimar cada recanto do vale. Unidireccional, este afecto, jamais exige retorno.

2007/08/23

Josef: I thought um, you and I, maybe we could go away somewhere. Together. One of these days. Today. Right now. Come with me.
Hanna: No, I don't think that's going to be possible.
Josef: Why not?
Hanna: Um, because I think that if we go away to someplace together, I'm afraid that, ah, one day, maybe not today, maybe, maybe not tomorrow either, but one day suddenly, I may begin to cry and cry so very much that nothing or nobody can stop me and the tears will fill the room and I won't be able to breath and I will pull you down with me and we'll both drown.
Josef: I'll learn how to swim, Hanna. I swear, I'll learn how to swim.




in A vida secreta das palavras
de Isabel Coixet

2007/08/15


Quinze.

Agosto.

2007.

23:30

Missão: exterminar, sem qualquer retalho de misericórdia, a gritante saudade que tem vivido dentro de mim!
Este blogue já deu que tinha a dar, bem como a minha passagem pela escrita. Ainda assim continua a fazer-me bem. Ainda assim alguns visitantes me acompanham nesta causa quase sempre errante e pelo tempo que aqui perdem mutio obrigada!


PS: hoje estou de uma lamechice só!

2007/08/13

Sabonete...


Ainda não encontrei a interjeição correcta para descrever o curto trilho que percorri até bifurcar com o teu caminho. Deparei-me contigo e com o sabonete em que tropecei: aquele que aparentemente te guarnece agora. O mesmo que parece afagar-te os banhos mornos nas noites mais recentes. Inocência! Será o mesmo sabonete? Aquele que num instante partido pelo tempo fez com que esse meu pé delizasse de forma desconcertante? O mesmo com perfume quase de anis, quase esverdeado… como o reflexo da montanha no teu cabelo? Não pode ser! Não pode ser aquele que me purificava a alma e em seguida me perseguiu a queda precipitada sobre a terra molhada!


Não encontro a interjeição. Talvez o sabonete seja realmente o mesmo. Tavez na minha inconsciência tenha sido por isso que me estendeste a mão: para me levantar da humidade da terras e da viscosidade dos vermes. Mas nada perdi, só ganhei as cores, a perfeição do solo em que caminho. Os meus pés imundos e descalços, percorrem com fervor noutra direcção, inspiram no sopé da montanha a erva pulsante sob eles. A água deixou de ser tépida mas a pele não é mais sensível.

2007/08/09

Meia coisa




Foi assim que me descobri. A música intermitente, as notas e a pauta descaída. O som entusiasta a decair… o decadente olhar da janela em buscar de algo que brilhe no céu: meia estrela. Falta-me… a outra metade, de uma coisa qualquer.

2007/08/06


Nós e a partida.
Já pensaste?
Na sua tirania?
Nós e a partida constante, sucessiva…

Ontem; os teus braços.
Amanhã: prelúdio do regresso.
O encanto do regresso,
a grandiosidade dos abraços
e os beijos de algodão,
arrebatadores como os primeiros.

2007/08/04

Em resposta ao desafio da menina tóxica aqui vai a lista dos 5 últimos livros que li:

5- "O mundo dos outros" de José Gomes Ferreira
4- "A ignorância" de Milan Kundera
3- "A espuma dos dias" de Boris Vian
2- "The ten trusts" escrito pela Jane Goodall
1- "Vinte poemas de amor e uma canção desesperada" de Pablo Neruda

2007/06/06

creio nos anjos que andam pelo mundo,
creio na deusa com olhos de diamantes,
creio em amores lunares com piano ao fundo,
creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes;

creio num engenho que falta mais fecundo
de harmonizar as partes dissonantes,
creio que tudo é eterno num segundo,
creio num céu futuro que houve dantes,

creio nos deuses de um astral mais puro,
na flor humilde que se encosta ao muro,
creio na carne que enfeitiça o além,

creio no incrível, nas coisas assombrosas,
na ocupação do mundo pelas rosas,
creio que o amor tem asas de ouro. amém.


Natália Correia

2007/05/20

Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Confiava que, repetida indeterminadamente, acabasse por perder o sentido. Não perdeu.

2007/05/12

VII - Da Minha Aldeia


Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe
de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos
nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.


Alberto Caeiro


PS: este poema foi-me trazido por uma pessoa que não é especialmente divertida, mas especialmente mal disposta.
Observo a poda daquela árvore no jardim em frente. Desbravada hoje, avultar-se-á, vigorosa, amanhã.
Admiro através da janela o rasto fino do dia, tão acanhado quase como se não tivesse sido um dia, talvez mais um sopro de horas, um adicionar de tempo somente. É belo, sim: a luz mingua paulatinamente, este silêncio pautado pelas aves harpejando melodias compostas, sinonimas de vento ameno e cor-de-rosa no horizonte. Repleta de beleza e tão cheio de nada para acrescentar ao mundo, senão trivialidades.
Assim terminará a minha vida, farta de beleza vaga arredada a um canto, e sem nada acrescentar a nada, um nada profundo. Não era minha intenção despedir-me cheia de lágrimas vazias. Não era. Queria despedir-me com um sorriso, com um lenço na mão, cheio de sal absorvido. Tencionava despedir-me sem vontade de despedidas. Dispensar a palavra adeus sem vontade de a dispensar. Não aconteceu desse modo. Embarco numa auto-distituição. Que afinal talvez seja aquilo que não “sobremereci” neste percurso: o direito assentido de partir.

2007/05/06

Reencontro

Umas depois das outras, as letras, as palavras vão-se compondo. Tento encontrar alguma ordem, o melhor local, mas quando elas saem directamente da corrente sanguínea para as teclas, acaba por desvanecer e criar um algo praticamente aleatório, reduzido em criatividade. Falta-me o tempo que ingeri entre suspiros ou lágrimas vãs, pulso os segundos azulados, ausentes, até aqui chegar descoordenada. Acerco-me deste momento, em que volto timidamente ao compasso, enlaço-o. Entorpecida, reencontro-me com o meu canto.

2007/03/25

"We cannot walk alone"


Encontrei esta imagem e decidi que tinha de pôr aqui. No caminho, lembrei-me de Martin Luther King, e da sua frase no meio de um sonho que ele teve.

2007/03/24

Toda as mulheres podem ser a mulher do poema de Ruy Belo. Todas foram a mulher do poema do Riuy Belo alguma vez. Ainda que apenas aos seus próprios olhos. Outras são ela, e não o vêem. Ficam aqui as palavras...

"Contigo aprendi coisas tão simples como
a forma de convívio com o meu cabelo ralo
e a diversa cor que há nos olhos das pessoas
Só tu me acompanhaste súbitos momentos
quando tudo ruía ao meu redor
e me sentia só e no cabo do mundo
Contigo fui cruel no dia a dia
mais que mulher tu és já a minha única viúva
Não posso dar-te mais do te dou
este molhado olhar de homem que morre
e se comove ao ver-te assim presente tão subitamente"

2007/03/23

And again...




Mais uma vez as palavras distorcidas, mais do que as escondidas, tropeçam escadas abaixo. As palavras pouco importam. O verde erguido perante azul, o cume, é mais. Será sempre mais, porque assim afirma perante as ervas. Assim as ervas acreditam que são árvores e a montanha acredita que é sol. E eu, lua nova, sob céu nublado, à espera de me rever no brilho de um olhar perdido naquele passeio junto ao rio. Somente esperando. Somente esperando.

2007/02/28

Singular. Cabelos sob a lua. Espalhada na especiosidade da cidade. Transbordante de si, evaporava-se nos seus próprios beijos. Por vezes, esgotava-se pelas ruas fora. Assobiava-se e prostrava-se, simultaneamente perante o tempo. Mais perante o tempo do que perante o espaço, o espaço não lhe servia nos pulsos. Quem a via queria ser tempo, refugiar-se na sua invisibilidade refulgente. Aconchegar-se na sua magnitude, para reter um pouco do seu olhar.

Especial, o desejo no recanto de cada ser. Ser especial. Querer ser tempo e ser espaço.

2007/02/23

O sal da língua


Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo,
não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco mais.
Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.




Para uma menina, do Eugénio de Andrade e passando por breves instantes pelas pontas dos meus dedos :)

2007/02/22

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Álvaro de Campos

2007/02/11

Sol e mundo peneirados pelas nuvens, pulverizados com gotas de água, aconchegados na mesma nota, a mesma tecla pretaum tom mais acima. Nada mais poderia ser cenário, para a minha vela ser estrela, a tua ausência sorriso e a caneta no papel a tua mão na minha.

2006/11/20

Essa náusea que sinto quando reconheço
a futilidade das minhas lágrimas.
A náusea que chega para confessar,
o meu desejo de que tudo isto se esvaia,
que desça paralelos abaixo e escorra
para o ribeiro quase tão poluído como eu.

Não estou condenada a ser eu própria, não!
Mas para onde ir se não encontro em mim aquela que deveria ser?

PERDOA-ME: não consigo ir nem ficar.

2006/11/19

Cada dia é mais evidente que partimos
Sem nenhum possível regresso no que fomos,
Cada dia as horas se despem mais do alimento:
Não há saudades nem terror que baste.


Sophia de Mello Breyner Andresen
Antologia
Círculo de Poesia
Moraes Editores
1975

2006/11/06


Incontáveis os instantes que tenho passado a respirar,
e aqueles em que quis tocar no céu,
naquele que pensava ser veludo morno.
Não, não os consigo contar, ter-lhes perdido a conta...
Assim remonto à sensação de infinito perdida,
somando-lhe os dias em que não consegui chegar-lhe,
mais aqueles em que achei que lhe toquei.

Ah meu céu amigo, essas nuvens que te encobrem,
que te aconchegam, que te abraçam,
que me fizeram deixar de poder sonhar contigo,
essas nuvens... quem me dera ser uma delas!

Talvez se se me fosse a densidade impura,
sim, se também eu fosse um fiapo intocável,
também eu seria perfeita e não sentiria
esta absorção de mim pelo mundo,
não sentiria esta ausência que grita: o vazio.

Nuvens: invejo-vos espalhadas, viajantes.
Fecho os olhos.
Evaporo-me e condenso-me em mim mesma.

2006/11/04

Quando escutares o violeta que escorre do céu, pousado nas tuas mãos, saberás. Então apenas poderei estender as minhas duas mãos e tranformar as tuas em quatro.

2006/10/30

Quando as ervas se tocam, entrelaçadas ao ritmo do vento, sabem que são feitas da mesma matéria. Ainda que não olhes para elas, lerás as ervas um dia nos meus olhos, assim que aprenda a abri-los e deixá-los tropeçar com as correntes atmoféricas.

2006/10/23

Hoje, inesperadamente, recebi um presente: Natália Correia!



Glorifiquei-te no eterno.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.

Para que desses um nome
à exactidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à humidade onde fica.

E o que acontece durante
na rapidez da descida
é a explicação da vida.

2006/10/09


Fito com o pensamento a tua imagem: a pétala branca a tocar ao de leve no teu lábio.

Pequenina e sem a tua mão a segurar a minha é assim que os meus passos se tornam mais curtos, na tua direção.

Escorre dentro de mim este sentir adstringente, a densidade de te saber não feliz.

2006/09/08

Lembrar-me-ei disto: quando a montanha voltar, com a sua supremacia enaltecida pela falsidade da luz da lua eu própia a rasgarei com as minhas unhas. Prefiro o meu vale à tua subida, que não me quer lá no topo, mas vítima da queda por ela abaixo. Não cairei novamente.

2006/09/07


- Ouvi a música que me faz lembrar de ti...
- E depois?
- Depois verti uma lágrima de saudade.
- Gostas demasiado de mim.
- A palavra demasiado não existe associada ao verbo gostar.
- Já pensaste que nunca vou gostar de ti assim.
- E na minha mão, consegues segurar?
- Às vezes com força.
- E esse às vezes pode acontecer sempre?
- Sempre.
Olho em volta branco e castanho, lisa e rugosa, a parede. Encostada a ela a cabeça fica mais leve. Choro.
- Porque choras? Era lá preciso!
- Sim era. Porque me trouxeste da lua.
- Estou cansado, já devias ter ido.
- Vou já. E não volto.
Os risos entoam. E lá fora um monstro de lágrimas, tenta esconder-se em frinchas infantis da rua. Sim também pode ser preciso chorar. As gotas da chuva continuam a rir-se, brincam em grupo, escorrem calçada abaixo.

2006/09/04

Repúdio pela palavra amor,
o mandamento dos novos tempos.

Corações desencarecerados: punição,
a pior de todas elas - desprezo.

2006/09/03

Agora

Não vou traçar, no mundo, linhas rectas.
É isto. É aquilo.
Sou só eu:
linha curva, esguia,
contornado as esquinas dos dias.
E perpetuando-me sobre os espinhos
posso ser tudo.
Um dia

Um ninho de tecido áspero,
o seu rosa pálido,
o rosto infesto com o teu sorriso,
o sarcasmo da tua voz.

Pinto este quadro
enquanto no meu peito se desenha
com metal rubro o pesado momento.

Auguraste as palavras,
palavras que pensaste
serem palavras postas em pedra.
Mordeste cada uma dessas sílabas,
cada nota desse canto,
um suspiro amargurado,
mas eram apenas peças de mim.

2006/09/01


Aqui sentada, estou quieta e ainda assim procuro esse ruído incessante. Esse pedaço de vulgaridade que aqui se encerra, mas que teimo em não reconhecer por detrás da minha cortina hoje púrpura e não azul.

Sou diferente das montanhas sendo igual a elas, lá no alto só, no sopé abençoada. Verde nestas palavras, grama, esconderijo de vida.

Ao longe ainda ouço... Já se ouvem fiapos da tua voz. E entre duas palavras solta-se um rasgo de adeus.

2006/08/22

Queria sentir a dor dessas feridas,
que me arrastaram colina abaixo.

Queria sentir o espasmo do sol nos meus olhos,
as pálpebras semi-cerradas, aguardando-te.

Queria usar a palavra amor e o seu aconchego.

Queria gritar, este grito que não cabe nas vibrações atmosféricas, que não cabe em canais e fluidos nem membranas, queria dar um grito que me calasse. Queria que as feridas doessem e vertessem todo o sangue. Queria sentir as agressões das paredes, nódoas negras do despertar. Queria esse cavaleiro andante que não existe, queria-o comigo, para me levar de negro na noite, para onde não conheço.

Encerrando-te te consumo: vida.
Nada mais.

2006/07/26

Felicidade

O amplexo do mundo a embalar-me
na harmonia do compasso do tempo da vida.
Este berço oscilando entre as correntes.

Não tenho muitas vezes a ideia de ser feliz,
mas muitas vezes sou-o.
Nem sempre as repetições fazem sentido. É raro fazerem sentido para muita gente. Mas neste cantinho fez todo o sentido. Como algo que faz sentido repetir-se porque se sente ou se pensa ou porque se deixa de sentir ou pensar. Porque se quer acreditar, ou rir, de algo que se repete. Ou até mesmo, na exaustão da repetição, fluir de encontro ao esquecimento.
MEU AMIGO


MEU AMIGO, não sou o que pareço.

A aparênciaé apenas um vestido que levo,
um vestido cuidadosamente urdido
que me protege das tuas perguntas,
e a ti do meu desinteresse.

O «eu» que há em mim,
meu amigo,
vive na casa do silêncio,
e ali ficará sempre,
irreflectido, impraticável.

Não te levarei a acreditar no que digo,
nem a confiar no que faço,
porque as minhas palavras
mais não são que os teus próprios pensamentos
convertidos em som,
e as minhas obras
são as tuas próprias esperanças
materializadas em actos.

Quando dizes:
- O vento Sopra de Leste, digo:
- Sim, sopra sempre de Leste;
mas não quero que saibas
que então o meu espírito
não se ocupa do vento,
mas do mar.

Tu não podes entender os meus pensamentos,
filho do mar,
nem me interessa que os compreendas.
Prefiro continuar sozinho
com o mar.

Meu amigo,
quando para ti é dia,
para mim é noite;
mas nem por isso deixo de falar-te
da luz do dia que banha os cumes
nem da sombra cor de púrpura
que avança pelos vales;

Porque tu não podes ouvir
chegou a um terço:
as canções da minha obscuridade,
nem podes ver as minhas asas
adejando contra as estrelas;
e não me interessa que ouças ou veja
so que há em mim.

Prefiro estar sempre
sozinho na noite.

Quando sobes ao teu céu,
desço ao meu inferno.

Então chamas-me
através do abismo intransponível
que há entre ti e mim:
- Companheiro ! Camarada !
E eu respondo: -
Porque não quero
que vejas o meu inferno.

Ficarias cego com as chamas,
e asfixiado pelo fumo.

E eu amo demasiado o meu inferno
para te deixar visitá-lo.

Prefiro estar sozinho no meu inferno.

Tu amas a Verdade, a Beleza, a justiça,
e eu para te comprazer
digo que estou de acordo contigo
e que está certo
que ames essas coisas.

Mas, no fundo do meu coração,
rio-me do teu amor por elas.

Contudo, escondo-te o meu riso,
porque prefiro rir-me sozinho.

Meu amigo,
és bom, prudente e sensato;
mais ainda, és perfeito.

Por mim, falo contigo
com sensatez e cautela, mas...
estou louco.

Oculto a minha loucura
com uma máscara.

Prefiro estar louco sozinho.

Meu amigo,
não és meu amigo.

Mas como fazer-te
compreender isto?

O meu caminho
não é o teu caminho,
e, contudo, caminhamos juntos,
de mãos dadas.


Kahlil Gibranin
in "O Louco"

2006/07/17

Gosto quando o teu sopro me surpreende!
Escondes a lua no teu cabelo para eu descobrir.
Ofereces-me o teu coração no doce toque do céu caído na minha pele.
E apenas o teu olhar basta para o meu sorriso ser eterno.

2006/07/06

Não sei.
Miragem

Queria sentir-te aqui ao pé de mim, como achava que estavas antigamente.

Ou seria o teu sorriso de lua, a Norte do mundo, minguando por dentro e crescendo no papel emaranhado da noite?
...
...
...
Não sei se quero continuar a não te encontrar na minha miragem.

2006/07/05


A história da cortina azul...

Pintei-te de azul, como doutras vezes, foi então que me apeteceu contar a tua inebriante história que de inebriante talvez tenha apenas a brisa. Esse compasso que marcas descompassada, que deixa as suas marcas no meu corpo irregular. E é bom lembrar-te assim: ondulante! De veludo! Tocando-me apenas ao de leve e assim acolhendo-me. Sempre a fingir-te ininteligível num vale perdido dentro de mim...
Fui pintando de azul esse teu veludo até ao dia em que apareceste noutra tela, plágio de brisa leve. Tela bela, bela tela encerrou os aplausos de quem leu essa tonalidade azul. Os músculos a embaterem e a darem-te uma forma diferente.
Voltaste, julguei que com sabor adúltero. Contudo, encobriste-me, envolveste-me no teu refúgio quase feérico. As minhas pálpebras encostadas no escuro, permitiram-me que me guiasses assim. Reencontramo-nos num momento chamado ternura, escondido debaixo da minha cama. Continuo a pintar-te de azul, deixo que me guies, incansável, sob o teu manto de ternura.
Porque será? Serão que as palavras vos repudiam? Ou será que refulgem e temeis o ardor do seu brilho? A lágrima sentada na porta da noite descai suavemente, recolhendo-se aos seus recantos ondulantes. O sorri esbate-se escada acima, também ele preferiu encabulado a sombra da cortina de veludo azul. Ajoelhou-se na ausência a presença do nada.

2006/06/18


Beijaste-me com a tua luz, e com uma lágrima retribuo aquilo que não se retribui: beleza.
Feiticeiro

Conhecendo-te, enxergo os espinhos que deixas no tecido acetinado verde-salsa. Pronuncio de Natureza íngreme, cortante, que intencionalmente escondes com o teu sorriso lavado. Ainda bem que os elementos me deixam falar-te assim, porque falar-te assim é tudo que tenho, no seio desse sorriso feiticeiro. Feiticeiro, que não é a primeira vez que assim te chamo. E que tu não ouves. E que ninguém sabe. Rasgam-me esses teus murmúrios com que enganas quem quer ser enganado. Aos poucos vejo morrer quem quer viver, no teu feitiço.
Arrogante ego, trespassas com a tua faca disfarçada de pena os corações menos atentos.
Encubram-se, com um manto de noite, ou de indiferença! Continuarmos a ser é o que nos resta, é o que nos torna grandes nesses pequenos suspiros de dor.

2006/06/10

Esculpir-te suavemente,
Um de cada vez,
Os degraus do tempo para cima,
Removendo as arestas cortantes:
Era assim que te desejava – poema.


Contudo, naceste vertigem:
rasgo de mim dentro de mim.

2006/04/12

O meu abismo reencontra-se comigo,
No canto esculpido em forma de lágrima.
Queria ele ser céu, mas é vale.
Queria eu rasgar as mãos, que afogam este rio.

Abraço as palavras como se a sua força me removesse de dentro de mim.
Tantas as vezes que o mundo me faz querer sair de dentro de mim...

2006/03/26

Quantos destes sorrisos não são fabricados nas nuvens?
Nuvens do céu, fiapos de atmosfera ímpios.
Renego o ar condensado que nos turvou a visão.
Renego estes sorrisos, dissipados, no escorrer da altitude.

E o ruído escangalhado dos dias,
a lembrar-me do teu medo do silêncio.
Porque insistes em não parar?
Não paras essa emissão,
o amontoado de notas irregulares
que concebem o teu canto.
Tens medo de ouvir...
...ouvir o quê?
O quê?
O quê.

2006/02/24

Para quê doer tanto?...
quando os sopros da brisa se propagam baixinho,
quando a temperatura amena deixa a pele rosada?

Para quê não sei.
Os sorrisos, ao fundo, ouço...
Gritam. Ilusão.

2006/02/14

Dos dias de amanhã

Sentirei falta disso.
E de uma tecla por premir.
Dos dias de hoje

Eu sinto falta disso.
Dos dias de ontem

Ainda me lembro dos tijolos salteados da praça.
As notas não cabem aqui, agarravam as vibrações das partículas,
Como às mãos do parapeito que dá para o mar.
Era assim que as pessoas se encontravam umas às outras:
na praça...
...várias camadas de excipientes sobrepostas.
O travo insípido da madrugada sabia a silêncio e a algumas luzes acesas.
As teclas esbatidas da impressão dos dedos,
o som arremessado por de entre os dentes que rangem.
Calculados os segundos, enchiam os cafés de estômago, e o fumo de pulmões,
o mimetismo dos dias, o ritmo.
Não chorei para que fizesse sentido, não foi por isso.
A sucessão destes momentos na praça,
no meu inspirar marginal,
padronizava a ausência de busca pelo principio activo da existência.
E eu sentia falta disso.

2005/12/31

Um encerrar de pálpebras ligeiro e a tua imagem instantânea em mim.
A intersecção de dois caminhos, que jamais se cruzariam se não fosse o vento dos teus dedos dedos. Partirás de novo, sorrateiro sobre as pedras da calçada, que seja bom o teu encontro com o infinito.

2005/12/30

Tu.

Riste enquanto davas aqueles passos.

Não estudei as respostas do teu corpo.

Mas lembro-me do escorrer do teu riso visceral enquanto davas aqueles passos. Como eu os recordo!...
Como eu os recordo?

Cada passo uma pequena agulha a trespassar o calibre dos meus ossos. Irriguei dentro de mim o teu riso com lágrimas e medula.

Estavas só. Mas a palavra só é a palavra só para ti, nada mais. No dia antes do dia. Foste encontrar-te ali.
Ali reencontraste a dor e eu vi-te.

Temo em ti essa solidão.
Temo-a em mim, entranhada no meu egocentrismo cutâneo.

Reconheço que a tua essência cheira a baunilha e não a pobreza.
Reconheço que te banhas num mar muito mais completo que eu, com mais jóias e mais corais. Reconheço-te a brisa dos passos.
Reconheço-te nos passos que eu não teria dado.
Reconheço aqueles que, como tu, caminham.
Aqueles que como tu caminham.
Reconheço os que se repetem, como tu e eu.
Reconhecer não é tornar-te importante, mas visível.

Agora já te conseguimos ver.
Nunca ninguém te pôde roubar a ausência de luz.

2005/12/22

Despedida

Até que enfim... Os Irras e os Ufas caminham de mãos dadas para bem longe, por detrás daquela colina já não vejo essas interjeições ansiosas de outros tempos, só o suspiro: o compor do oxigénio no meu sangue. A respiração serena restabelece-se em comunhão com o travo amargo da noite, o aroma gélido da solidão, o saber que nunca mais naquele cume surgirá de novo aquele sol.
Percepção demorada, em lenta câmara, nunca lá esteve, afinal eras tu que mo mostravas, ainda eu pequena, ainda eu absorvida naqueles sonhos idílicos, naqueles prados de ironia cintilante, eras tu naquele pedaço de papel dourado recortado, que me mostravas o sol, e era o sol que eu via. Agora sei que ele nasce do lado oposto, não naquele cume, nem no mar, nem na brisa.

Ainda é na sua existência, que sinto que me sinto por entre os insterstícios do tempo. O que fez ele com o sol e comigo e com o mundo?

O sol nasce sempre. Do lado oposto, irradiando sorrisos inesperados a cada segundo que eu não vejo.

O mim e o tempo, sou menos pequena, menos dourada, menos caminhante mas mais arrepiada.

O mundo é quem me arrepia, com o seu sopro e com os seus gritos.

Gritos que perduram, sopro que vagueia.

2005/12/14

Fundiu o seu corpo com a relva,
O tom inquieto da melanina, beijada pelo sol...
A pele a cobrir-se de verde,
o toque impregnado do brilho latejante ,
o perfume inconfundível,
esse jazer disfarçado de sorriso a montante.
A perfeita simbiose: as veias, os vasos.
A raiz e o cabelo indistinguivel.
A captação do sol, o respirar, o absorver, a água, chuvas, terra, tudo, num só.
Tudo para ter tudo.
E ser um só que nada perde.
Terra, vegetal, corpo, humano,
ocultando a margem ao rio.

2005/11/14

Não escrevo.
Não escrevo.
Não quero dizer mais que há mãos elásticas, ressuscitadas,
a consumirem-me: simbioses com os meus tornozelos, arrepios de dor.
Deitada, com o rosto colado ao asfalto áspero,
é assim que a sua ausência de olhos me quer ver.
Não quero mais imprimir esse sabor corrosivo nos meus dedos,
não quero mais que as palavras sucumbam num mar deste travo.

2005/10/27


Mercedes!!! Onde estiveste? Como foi possível? Nem consigo imaginar-te assim, tão só, tão derradeiramente só, depois de tudo o que me deste, depois do quanto preencheste muitos dos meus vazios com a tua voz!
Tão espalhada pelo mundo, e tão cheia de ausências em cima de uns lençóis, tanto tempo. Ainda bem que te aproximaste Dele, só isso me faz despoletar o sorriso esmorecido. Oh Mercedes... ouço as tuas palavras e sei que jamais existirá algo que as consiga arrancar de mim: Es tan grande, la vida... Me he dado cuenta de que la tomamos muy a la ligera.

Ouço repetidamente o teu eco quente: No te entregues corazón libre....

Ainda bem que voltaste.

2005/10/22

A tua pele, tão doce, tão primaveril,
embrulhada no cobertor intenso,
quente de Outono... encostado a mim.
O ardor da chuva ácida, respingando,
tentando pousar nas minhas glândulas,
mas sempre lá fora, lá fora, o lá fora.
E lá fora estava eu e os meus electrões,
a fugirem de mim, do momento,
de tudo que era o ali.
As veias a emergirem da pele transparente, azuis, como o sangue vermelho, verdadeiras. O vazio ansioso a arfar, encostando-se à minha testa, provocante.


Querer tanta coisa, e ser tudo ao mesmo tempo, e tentar sê-lo, e falhar...
Não ser vento, nem chuva, nem mar, nem rio,
Ser só gotas, ou sopros incompletos...
Querer dizer-te adeus e abraçar-te,
E fundir os meus músculos nos teus.
Chorar, não com lágrimas, mas com água,
Aquilo pelo que não se chora: inexistência.

2005/09/18

Quero um daqueles sonhos que ficam para sempre,
quero um desses sonhos que se pousa no granito dos bancos de jardim,
daqueles em que se podem estender até ao rio,
e ficar ali a olhá-lo,
como se fosse meu e ao mesmo tempo pertencesse à turbulência das águas.

Nem as mãos que abro como asas,
para pousar na superfície rugosa da minha existência,
chegam para sustentar esse sonho, que é a ausência destas lágrimas.
Nem esse voo liberto, nem esses sentimentos alados na minha boca,
São suficientes para te ter aqui comigo.

Onde é que o rio encontra o mar e os sonhos se misturam com os peixes?
Quero embarcar na corrente fluvial com odor a maresia e rasto de piscares de olhos feéricos, a escorrer de ilusão e conforto.

2005/09/14


Pele, corpo nu, e água turva envolvendo-o, escondendo-o: apertas as mãos contra os olhos, olhos cansados, olhos aguçados que te fazem verter esse líquido vigorante, que escorre enleando, misturando-se com a água que banha o teu abismo. Escorre para onde a gravidade o puxa, no seio daquilo que é belo e onde existe algo mais belo. No centro de um planeta está outro, e as chamas solidificaram e são feitas desse magma que é rocha ou que és tu dentro de ti. Tudo em ti tão natural, como se natural quisesse dizer apocalíptico. E só quero puxar-te para aqui, desvendar-te as mãos e os olhos, as sobrancelhas molhadas, e o teu receio indiscriminado, confundido com a tua luz. Queria tanto aninhar-me na tua luz, tanto...

2005/09/06


Calçada

Passo dos dedos na calçada,
e cada uma das suas peças
como prolongamento dos meus dedos,
e os meus dedos sorvessem a vida.
Toque inequívoco, no chão, nos passos,
a saber a terra e a tudo, nos meus nervos, nas entranhas.
Calçada, rua, solooooooooooooooooo.....
Como me delicio com o seu toque,
textura enrugada sob mim,
lágrima enrolada na areia dos sapatos.
Passeios de mãos dadas, a arranharem-me a pele,
E tu e eu e nós e todos e tanto, ali.
Eu a calçada, o mundo.

2005/09/01

Virei a esquina e vislumbrei a Sagrada Família majestosa, incompreendida, invadida e foi quando tive aquela sensação de escuridão apesar das pálpebras abertas... como naquele dia de Agosto arredado, em cima da cerejeira a tropeçar na incandescência do sol. Ali ajoelhada, diante de mim, a sua grandiosidade catedralesca, nascida de pequeno fragmento da genialidade de um só homem. Esse homem que emanava uma sensibilidade devastadora e que ninguém tocava... alguém para quem a palavra terminou debaixo dos carris metálicos de uma existência inacabada.
Apenas um olhar pode provocar essa mesma sensação que hoje evoco: o mesmo negro, que pode ser os meus olhos fechados a cair de uma escada, a surgir inesperadamente ao virar da esquina. Esse sentir que nem de lágrima se disfarça, é tão só um cambalear psicótico de encontro às paredes feitas de músculo cardíaco que aqui encerro... assim tão longe da luz. E esse encontro, ao virar da esquina, com uma plaquinha de rebordo de cetim azul com caracteres cravados, que nem sempre identifico, está sempre a um milímetro de mim. Não existe qualquer mistério, sou apenas capaz de me encontrar com ausência de luz tal como muitos e tudo porque as outras pessoas estão do outro lado.

2005/08/28

Adormecer...


Um torpor, para terminar esta noite,
germina pelos recantos da minha alma
deixada ao acaso da vida sem aviso.
É por não ter presenças concretas aqui,
excepto essa ascensão invertida de cócegas
a roçar no meu sossego, que me vou deitar,
sempre sem saber qual o pensamento com que me irei cobrir,
nem ao lado de que lâmina afiada do meu ser me irei aconchegar:
a sina de quem, errante ou não, teima em persistir amando.

2005/08/24


E depois chegam esses dias, enfeitados com a bruma inequívoca, que cheira a escárnio inteligível em todos os cérebros por aí. O que não falta são cérebros e carne, carne por aí, carne que queima, que se debate ofegante, por um lugar melhor, por mais minutos, por mais horas inventadas, estropiadas. O que não falta é carne e o que não falta é alma... nem carne, nem alma, nem coração. Nada parece faltar. Nem se vai embora esse debate cruel, entre os vales e as montanhas, não desaparecem os vales que querem chegar às montanhas nem as montanhas que se querem desprover da sua imponente e irredutível beleza só porque se sonharam vales um dia.
Esquecem-se mesmo de que são banhados pela mesma água? Que são a mesma carga positiva, em qualquer canto, a atrair a carga negativa? Em qualquer pulmão, em qualquer cristal, em qualquer punhado de terra? Quando me esqueço disto, e são muitas as vezes, em que os fiapos de tudo o que é resto estão impregnados na minha existência, em que sei que sou menos. Esqueço-me que tudo tende a anular-se para se estabilizar e que isso significa vencer.
E chegam mais dias em que sei que choro só porque parecem não existir sinapses a levarem-me até junto de ti, mas desfiladeiros, intransponíveis pelo meu constante receio, por tudo aquilo que é orgânico em mim e que, mesmo sem querer, me esmaga. E escorre o sangue em vez da metafísica, e escorrem as lágrimas em vez dos números e transpiro em vez de pensar. E sinto, de uma forma tão dementemente avassaladora, como caminhar sobre bocados de vidro cortantes, já banhados no meu sangue. E no fundo, tudo se conduz a uma demência temporária e somática que se nutre graças a um somatório enxovalhado de páginas insignificantes.

2005/08/12


Nós



O ar deslizou, levemente comprimido pelos teus lábios, que incrustaram o seu travo doce nas partículas dessa brisa que insurgiu do teu suspiro azul.
Moléculas que se conjugaram, naquela noite indiferente, com os meus receptores desprevenidos, emulsionando todos os perfumes entrenhados na minha pele geometricamente desenhada para te tocar.
Sentia algumas camadas da tua epiderme, sob os meus dentes, débeis, subjugadas à inquietação do meu desejo envolvido nas tuas pétalas polvilhadas de ternura.
E foi no céu, que os meus perfumes se cruzaram com o teu suspiro entrelaçando-se na fragilidade do meu toque no teu... então desceram sobre nós na forma da palavra amor.

2005/08/06

Beleza

Imagino-a como um ponto denso e cerrado,
e ao mesmo tempo uma mancha inteligível,
caída na graça de cada ser.
Difícil será encontrar aquele
que conseguiu transpor os seus sentidos para lá dela...

É uma estrela, é um mar, é um sol, é uma luz,
Que todos conseguem sentir: sístoles em uníssono!
Ninguém parece poder tocar-lhe,
mas todos se tocam, todos se sentam no mesmo banco de jardim com ela.
Todos caminham na rua com ela por perto.
Enroscada em cada fio de cada conjunto de cabelos,
Dorme com todos, todos aqueles com pele e ouvidos e olhos e boca.

Ouvi um segredo, que dizia,
que para conquistarmos o mundo,
bastava saber senti-la, ainda que a fingir.
Eu queria apenas soprar o mansinho oxigénio,
ateando esse fogo que reside em nela,
e que nas pontas dos meus dedos foi um dia proscrito.

2005/08/04

Visão

Vi-te: um relance do tempo, que preencheu o meu olhar.
E fossem todas as visões cascatas ascendentes,
efusões de gotas comemorando o seu esplendor,
o seu brilho intenso, que exulta como quem agride,
na soma das suas formas de beleza e de júbilo.

Não. Essa tua visão inebriante que cortou, dilacerou, sorveu
em gestos proteicos toda a inocência daquele meu dia.,
esse trespasse de luz através dos meus olhos,
enrugou o meu coração até ao lixo.
Depois sentou-se calma a olhar o mar,
o mar ébrio de tantos olhares, menos do meu,
que se arrasta ainda nas pedras, no cimento da rua.

Mas para que me ouças a voz cansada: não vou ficar por aqui!
O aqui é um limite rente, transponível.

2005/07/26

Cobri-me com esse manto,
de pele nua de mulher,
e caminhei nas ruas, leve,
pés alados como a brisa.

Reencontrei em cada passo o meu caminhar,
convidei as provocantes montras para jantar.

Já falei da brisa nos meus pés,
o ar o vento, meus vassalos,
serviram-me escaldada a sensação perdida...
...encontrar-me ali, para o mundo.

2005/07/22

MEU AMIGO

MEU AMIGO, não sou o que pareço.

A aparência
é apenas um vestido que levo,
um vestido cuidadosamente urdido
que me protege das tuas perguntas,
e a ti do meu desinteresse.

O «eu» que há em mim,
meu amigo,
vive na casa do silêncio,
e ali ficará sempre,
irreflectido, impraticável.

Não te levarei a acreditar no que digo,
nem a confiar no que faço,
porque as minhas palavras
mais não são que os teus próprios pensamentos
convertidos em som,
e as minhas obras
são as tuas próprias esperanças
materializadas em actos.

Quando dizes:
- O vento Sopra de Leste, digo:
- Sim, sopra sempre de Leste;
mas não quero que saibas
que então o meu espírito
não se ocupa do vento,
mas do mar.

Tu não podes entender os meus pensamentos,
filho do mar,
nem me interessa que os compreendas.
Prefiro continuar sozinho
com o mar.

Meu amigo,
quando para ti é dia,
para mim é noite;
mas nem por isso deixo de falar-te
da luz do dia que banha os cumes
nem da sombra cor de púrpura
que avança pelos vales;

Porque tu não podes ouvir
chegou a um terço:
as canções da minha obscuridade,
nem podes ver as minhas asas
adejando contra as estrelas;
e não me interessa que ouças ou vejas
o que há em mim.

Prefiro estar sempre
sozinho na noite.

Quando sobes ao teu céu,
desço ao meu inferno.

Então chamas-me
através do abismo intransponível
que há entre ti e mim:
- Companheiro ! Camarada !
E eu respondo: -
Porque não quero
que vejas o meu inferno.

Ficarias cego com as chamas,
e asfixiado pelo fumo.

E eu amo demasiado o meu inferno
para te deixar visitá-lo.

Prefiro estar sozinho no meu inferno.

Tu amas a Verdade, a Beleza, a justiça,
e eu para te comprazer
digo que estou de acordo contigo
e que está certo
que ames essas coisas.

Mas, no fundo do meu coração,
rio-me do teu amor por elas.

Contudo, escondo-te o meu riso,
porque prefiro rir-me sozinho.

Meu amigo,
és bom, prudente e sensato;
mais ainda, és perfeito.

Por mim, falo contigo
com sensatez e cautela, mas...
estou louco.

Oculto a minha loucura
com uma máscara.

Prefiro estar louco sozinho.

Meu amigo,
não és meu amigo.

Mas como fazer-te
compreender isto?

O meu caminho
não é o teu caminho,
e, contudo, caminhamos juntos,
de mãos dadas.

Kahlil Gibran
in O Louco

2005/07/21

Um dia estava a olhar,
olhava como quem não olha,
sem vontade nos olhos!
No entanto, nu cume deste sentido,
encontrei a tua visão...
...uma visão quieta e distante.
Fizeste-me parar sem parares um segundo!

E esse descernimento,
dessa tua convicta atenção,
trouxe-me apenas a certeza
de que não havia de partir
sem ta roubar!

2005/07/20

Sentei-me aqui, como de costume,
o costume brando de te olhar o olhar estudado,
onde gentilmente me sorriste, com esse sorriso pontiagudo...
que fere de tão intenso e que nasce e morre no teu rosto,
encostado ao vidro, despido de enredos e intrigas.

E o que posso eu esperar da vida,
deste caminho todo que percorro abstractamente?
O que posso esperar dela?
Se tudo o que ela me ensinou foi a apaixonar-me pela simplicidade destes momentos?

2005/07/17

Mutação


Expirou.
Edificado com pedaços fictícios:
a sensualidade, a confiança, o arrojo,
o balanço perfeito entre a determinação e a indecisão atraente,
uma leve dose de mistério, de inocência
e a uma inteligência exacerbada, mencionada, registada.

Pousou noutro cantinho.
Aninhou-se, borrifou umas gotas de perfume fádico
sobre os ombros nus e lisos.
Libertou o olhar hipnótico
enfeixado com estilhaços da sua existência.
Renasceu com a beleza maior e mais falsa.
Emana diariamente o seu sorriso,
onde esconde, atrás de uma cortina áspera, agulhas afiadas
para afastar todos os mundos do seu canto.

Só sei de Dezembro.
Sei das unhas de metal a rasgarem a carne das minhas costas,
do sangue a chegar a um lençol preto.
Foi o que precisei, de algo que
me fizesse sangrar como uma doença real,
para saber que tinha sido o seu fim ali.
II.

A alma vai palpitando,
numa cadência triste e sentida.
De cruel conhece o mundo,
um punhal da bruma emergido.
Nos seus cantos sente o vento,
uma manta generosa de frio.
Dos seus dedos jorra sentido,
uma mão inerte que a morte eterniza.
Saltitante e a cores,
num corpo que vagueia sem ir,
transbordante de destino
e a sorrir de sonho...

É neste dia, que a fingir, é minha.
Toco-lhe com a consciência.
Beijo-a com a sensação.
Arrasto-a comigo no perdurar do tempo.