Em resposta ao desafio da menina tóxica aqui vai a lista dos 5 últimos livros que li:
5- "O mundo dos outros" de José Gomes Ferreira
4- "A ignorância" de Milan Kundera
3- "A espuma dos dias" de Boris Vian
2- "The ten trusts" escrito pela Jane Goodall
1- "Vinte poemas de amor e uma canção desesperada" de Pablo Neruda
Alguém que me lê e eu não vejo.
2007/08/04
2007/06/06
creio nos anjos que andam pelo mundo,
creio na deusa com olhos de diamantes,
creio em amores lunares com piano ao fundo,
creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes;
creio num engenho que falta mais fecundo
de harmonizar as partes dissonantes,
creio que tudo é eterno num segundo,
creio num céu futuro que houve dantes,
creio nos deuses de um astral mais puro,
na flor humilde que se encosta ao muro,
creio na carne que enfeitiça o além,
creio no incrível, nas coisas assombrosas,
na ocupação do mundo pelas rosas,
creio que o amor tem asas de ouro. amém.
Natália Correia
creio na deusa com olhos de diamantes,
creio em amores lunares com piano ao fundo,
creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes;
creio num engenho que falta mais fecundo
de harmonizar as partes dissonantes,
creio que tudo é eterno num segundo,
creio num céu futuro que houve dantes,
creio nos deuses de um astral mais puro,
na flor humilde que se encosta ao muro,
creio na carne que enfeitiça o além,
creio no incrível, nas coisas assombrosas,
na ocupação do mundo pelas rosas,
creio que o amor tem asas de ouro. amém.
Natália Correia
2007/05/20
Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Confiava que, repetida indeterminadamente, acabasse por perder o sentido. Não perdeu.
2007/05/12
VII - Da Minha Aldeia
Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe
de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos
nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.
Alberto Caeiro
PS: este poema foi-me trazido por uma pessoa que não é especialmente divertida, mas especialmente mal disposta.
Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe
de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos
nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.
Alberto Caeiro
PS: este poema foi-me trazido por uma pessoa que não é especialmente divertida, mas especialmente mal disposta.
Admiro através da janela o rasto fino do dia, tão acanhado quase como se não tivesse sido um dia, talvez mais um sopro de horas, um adicionar de tempo somente. É belo, sim: a luz mingua paulatinamente, este silêncio pautado pelas aves harpejando melodias compostas, sinonimas de vento ameno e cor-de-rosa no horizonte. Repleta de beleza e tão cheio de nada para acrescentar ao mundo, senão trivialidades.
Assim terminará a minha vida, farta de beleza vaga arredada a um canto, e sem nada acrescentar a nada, um nada profundo. Não era minha intenção despedir-me cheia de lágrimas vazias. Não era. Queria despedir-me com um sorriso, com um lenço na mão, cheio de sal absorvido. Tencionava despedir-me sem vontade de despedidas. Dispensar a palavra adeus sem vontade de a dispensar. Não aconteceu desse modo. Embarco numa auto-distituição. Que afinal talvez seja aquilo que não “sobremereci” neste percurso: o direito assentido de partir.
Assim terminará a minha vida, farta de beleza vaga arredada a um canto, e sem nada acrescentar a nada, um nada profundo. Não era minha intenção despedir-me cheia de lágrimas vazias. Não era. Queria despedir-me com um sorriso, com um lenço na mão, cheio de sal absorvido. Tencionava despedir-me sem vontade de despedidas. Dispensar a palavra adeus sem vontade de a dispensar. Não aconteceu desse modo. Embarco numa auto-distituição. Que afinal talvez seja aquilo que não “sobremereci” neste percurso: o direito assentido de partir.
2007/05/06
Reencontro
Umas depois das outras, as letras, as palavras vão-se compondo. Tento encontrar alguma ordem, o melhor local, mas quando elas saem directamente da corrente sanguínea para as teclas, acaba por desvanecer e criar um algo praticamente aleatório, reduzido em criatividade. Falta-me o tempo que ingeri entre suspiros ou lágrimas vãs, pulso os segundos azulados, ausentes, até aqui chegar descoordenada. Acerco-me deste momento, em que volto timidamente ao compasso, enlaço-o. Entorpecida, reencontro-me com o meu canto.
2007/03/25
"We cannot walk alone"
2007/03/24
Toda as mulheres podem ser a mulher do poema de Ruy Belo. Todas foram a mulher do poema do Riuy Belo alguma vez. Ainda que apenas aos seus próprios olhos. Outras são ela, e não o vêem. Ficam aqui as palavras...
"Contigo aprendi coisas tão simples como
a forma de convívio com o meu cabelo ralo
e a diversa cor que há nos olhos das pessoas
Só tu me acompanhaste súbitos momentos
quando tudo ruía ao meu redor
e me sentia só e no cabo do mundo
Contigo fui cruel no dia a dia
mais que mulher tu és já a minha única viúva
Não posso dar-te mais do te dou
este molhado olhar de homem que morre
e se comove ao ver-te assim presente tão subitamente"
"Contigo aprendi coisas tão simples como
a forma de convívio com o meu cabelo ralo
e a diversa cor que há nos olhos das pessoas
Só tu me acompanhaste súbitos momentos
quando tudo ruía ao meu redor
e me sentia só e no cabo do mundo
Contigo fui cruel no dia a dia
mais que mulher tu és já a minha única viúva
Não posso dar-te mais do te dou
este molhado olhar de homem que morre
e se comove ao ver-te assim presente tão subitamente"
2007/03/23
And again...

Mais uma vez as palavras distorcidas, mais do que as escondidas, tropeçam escadas abaixo. As palavras pouco importam. O verde erguido perante azul, o cume, é mais. Será sempre mais, porque assim afirma perante as ervas. Assim as ervas acreditam que são árvores e a montanha acredita que é sol. E eu, lua nova, sob céu nublado, à espera de me rever no brilho de um olhar perdido naquele passeio junto ao rio. Somente esperando. Somente esperando.
2007/02/28
Singular. Cabelos sob a lua. Espalhada na especiosidade da cidade. Transbordante de si, evaporava-se nos seus próprios beijos. Por vezes, esgotava-se pelas ruas fora. Assobiava-se e prostrava-se, simultaneamente perante o tempo. Mais perante o tempo do que perante o espaço, o espaço não lhe servia nos pulsos. Quem a via queria ser tempo, refugiar-se na sua invisibilidade refulgente. Aconchegar-se na sua magnitude, para reter um pouco do seu olhar.
Especial, o desejo no recanto de cada ser. Ser especial. Querer ser tempo e ser espaço.
Especial, o desejo no recanto de cada ser. Ser especial. Querer ser tempo e ser espaço.
2007/02/23
O sal da língua
Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo,
não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco mais.
Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.
Para uma menina, do Eugénio de Andrade e passando por breves instantes pelas pontas dos meus dedos :)
Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo,
não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco mais.
Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.
Para uma menina, do Eugénio de Andrade e passando por breves instantes pelas pontas dos meus dedos :)
2007/02/22
2007/02/11
2006/11/20
Essa náusea que sinto quando reconheço
a futilidade das minhas lágrimas.
A náusea que chega para confessar,
o meu desejo de que tudo isto se esvaia,
que desça paralelos abaixo e escorra
para o ribeiro quase tão poluído como eu.
Não estou condenada a ser eu própria, não!
Mas para onde ir se não encontro em mim aquela que deveria ser?
PERDOA-ME: não consigo ir nem ficar.
a futilidade das minhas lágrimas.
A náusea que chega para confessar,
o meu desejo de que tudo isto se esvaia,
que desça paralelos abaixo e escorra
para o ribeiro quase tão poluído como eu.
Não estou condenada a ser eu própria, não!
Mas para onde ir se não encontro em mim aquela que deveria ser?
PERDOA-ME: não consigo ir nem ficar.
2006/11/19
2006/11/06

Incontáveis os instantes que tenho passado a respirar,
e aqueles em que quis tocar no céu,
naquele que pensava ser veludo morno.
Não, não os consigo contar, ter-lhes perdido a conta...
Assim remonto à sensação de infinito perdida,
somando-lhe os dias em que não consegui chegar-lhe,
mais aqueles em que achei que lhe toquei.
Ah meu céu amigo, essas nuvens que te encobrem,
que te aconchegam, que te abraçam,
que me fizeram deixar de poder sonhar contigo,
essas nuvens... quem me dera ser uma delas!
Talvez se se me fosse a densidade impura,
sim, se também eu fosse um fiapo intocável,
também eu seria perfeita e não sentiria
esta absorção de mim pelo mundo,
não sentiria esta ausência que grita: o vazio.
Nuvens: invejo-vos espalhadas, viajantes.
Fecho os olhos.
Evaporo-me e condenso-me em mim mesma.
2006/11/04
2006/10/30
2006/10/23
Hoje, inesperadamente, recebi um presente: Natália Correia!
Glorifiquei-te no eterno.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.
Para que desses um nome
à exactidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à humidade onde fica.
E o que acontece durante
na rapidez da descida
é a explicação da vida.
Glorifiquei-te no eterno.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.
Para que desses um nome
à exactidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à humidade onde fica.
E o que acontece durante
na rapidez da descida
é a explicação da vida.
2006/10/09
2006/09/08
2006/09/07

- Ouvi a música que me faz lembrar de ti...
- E depois?
- Depois verti uma lágrima de saudade.
- Gostas demasiado de mim.
- A palavra demasiado não existe associada ao verbo gostar.
- Já pensaste que nunca vou gostar de ti assim.
- E na minha mão, consegues segurar?
- Às vezes com força.
- E esse às vezes pode acontecer sempre?
- Sempre.
Olho em volta branco e castanho, lisa e rugosa, a parede. Encostada a ela a cabeça fica mais leve. Choro.
- Porque choras? Era lá preciso!
- Sim era. Porque me trouxeste da lua.
- Estou cansado, já devias ter ido.
- Vou já. E não volto.
Os risos entoam. E lá fora um monstro de lágrimas, tenta esconder-se em frinchas infantis da rua. Sim também pode ser preciso chorar. As gotas da chuva continuam a rir-se, brincam em grupo, escorrem calçada abaixo.
2006/09/04
2006/09/03
Um dia
Um ninho de tecido áspero,
o seu rosa pálido,
o rosto infesto com o teu sorriso,
o sarcasmo da tua voz.
Pinto este quadro
enquanto no meu peito se desenha
com metal rubro o pesado momento.
Auguraste as palavras,
palavras que pensaste
serem palavras postas em pedra.
Mordeste cada uma dessas sílabas,
cada nota desse canto,
um suspiro amargurado,
mas eram apenas peças de mim.
Um ninho de tecido áspero,
o seu rosa pálido,
o rosto infesto com o teu sorriso,
o sarcasmo da tua voz.
Pinto este quadro
enquanto no meu peito se desenha
com metal rubro o pesado momento.
Auguraste as palavras,
palavras que pensaste
serem palavras postas em pedra.
Mordeste cada uma dessas sílabas,
cada nota desse canto,
um suspiro amargurado,
mas eram apenas peças de mim.
2006/09/01

Aqui sentada, estou quieta e ainda assim procuro esse ruído incessante. Esse pedaço de vulgaridade que aqui se encerra, mas que teimo em não reconhecer por detrás da minha cortina hoje púrpura e não azul.
Sou diferente das montanhas sendo igual a elas, lá no alto só, no sopé abençoada. Verde nestas palavras, grama, esconderijo de vida.
Ao longe ainda ouço... Já se ouvem fiapos da tua voz. E entre duas palavras solta-se um rasgo de adeus.
2006/08/22
Queria sentir a dor dessas feridas,
que me arrastaram colina abaixo.
Queria sentir o espasmo do sol nos meus olhos,
as pálpebras semi-cerradas, aguardando-te.
Queria usar a palavra amor e o seu aconchego.
Queria gritar, este grito que não cabe nas vibrações atmosféricas, que não cabe em canais e fluidos nem membranas, queria dar um grito que me calasse. Queria que as feridas doessem e vertessem todo o sangue. Queria sentir as agressões das paredes, nódoas negras do despertar. Queria esse cavaleiro andante que não existe, queria-o comigo, para me levar de negro na noite, para onde não conheço.
Encerrando-te te consumo: vida.
Nada mais.
que me arrastaram colina abaixo.
Queria sentir o espasmo do sol nos meus olhos,
as pálpebras semi-cerradas, aguardando-te.
Queria usar a palavra amor e o seu aconchego.
Queria gritar, este grito que não cabe nas vibrações atmosféricas, que não cabe em canais e fluidos nem membranas, queria dar um grito que me calasse. Queria que as feridas doessem e vertessem todo o sangue. Queria sentir as agressões das paredes, nódoas negras do despertar. Queria esse cavaleiro andante que não existe, queria-o comigo, para me levar de negro na noite, para onde não conheço.
Encerrando-te te consumo: vida.
Nada mais.
2006/07/26
Nem sempre as repetições fazem sentido. É raro fazerem sentido para muita gente. Mas neste cantinho fez todo o sentido. Como algo que faz sentido repetir-se porque se sente ou se pensa ou porque se deixa de sentir ou pensar. Porque se quer acreditar, ou rir, de algo que se repete. Ou até mesmo, na exaustão da repetição, fluir de encontro ao esquecimento.
MEU AMIGO
MEU AMIGO, não sou o que pareço.
A aparênciaé apenas um vestido que levo,
um vestido cuidadosamente urdido
que me protege das tuas perguntas,
e a ti do meu desinteresse.
O «eu» que há em mim,
meu amigo,
vive na casa do silêncio,
e ali ficará sempre,
irreflectido, impraticável.
Não te levarei a acreditar no que digo,
nem a confiar no que faço,
porque as minhas palavras
mais não são que os teus próprios pensamentos
convertidos em som,
e as minhas obras
são as tuas próprias esperanças
materializadas em actos.
Quando dizes:
- O vento Sopra de Leste, digo:
- Sim, sopra sempre de Leste;
mas não quero que saibas
que então o meu espírito
não se ocupa do vento,
mas do mar.
Tu não podes entender os meus pensamentos,
filho do mar,
nem me interessa que os compreendas.
Prefiro continuar sozinho
com o mar.
Meu amigo,
quando para ti é dia,
para mim é noite;
mas nem por isso deixo de falar-te
da luz do dia que banha os cumes
nem da sombra cor de púrpura
que avança pelos vales;
Porque tu não podes ouvir
chegou a um terço:
as canções da minha obscuridade,
nem podes ver as minhas asas
adejando contra as estrelas;
e não me interessa que ouças ou veja
so que há em mim.
Prefiro estar sempre
sozinho na noite.
Quando sobes ao teu céu,
desço ao meu inferno.
Então chamas-me
através do abismo intransponível
que há entre ti e mim:
- Companheiro ! Camarada !
E eu respondo: -
Porque não quero
que vejas o meu inferno.
Ficarias cego com as chamas,
e asfixiado pelo fumo.
E eu amo demasiado o meu inferno
para te deixar visitá-lo.
Prefiro estar sozinho no meu inferno.
Tu amas a Verdade, a Beleza, a justiça,
e eu para te comprazer
digo que estou de acordo contigo
e que está certo
que ames essas coisas.
Mas, no fundo do meu coração,
rio-me do teu amor por elas.
Contudo, escondo-te o meu riso,
porque prefiro rir-me sozinho.
Meu amigo,
és bom, prudente e sensato;
mais ainda, és perfeito.
Por mim, falo contigo
com sensatez e cautela, mas...
estou louco.
Oculto a minha loucura
com uma máscara.
Prefiro estar louco sozinho.
Meu amigo,
não és meu amigo.
Mas como fazer-te
compreender isto?
O meu caminho
não é o teu caminho,
e, contudo, caminhamos juntos,
de mãos dadas.
Kahlil Gibranin
in "O Louco"
MEU AMIGO, não sou o que pareço.
A aparênciaé apenas um vestido que levo,
um vestido cuidadosamente urdido
que me protege das tuas perguntas,
e a ti do meu desinteresse.
O «eu» que há em mim,
meu amigo,
vive na casa do silêncio,
e ali ficará sempre,
irreflectido, impraticável.
Não te levarei a acreditar no que digo,
nem a confiar no que faço,
porque as minhas palavras
mais não são que os teus próprios pensamentos
convertidos em som,
e as minhas obras
são as tuas próprias esperanças
materializadas em actos.
Quando dizes:
- O vento Sopra de Leste, digo:
- Sim, sopra sempre de Leste;
mas não quero que saibas
que então o meu espírito
não se ocupa do vento,
mas do mar.
Tu não podes entender os meus pensamentos,
filho do mar,
nem me interessa que os compreendas.
Prefiro continuar sozinho
com o mar.
Meu amigo,
quando para ti é dia,
para mim é noite;
mas nem por isso deixo de falar-te
da luz do dia que banha os cumes
nem da sombra cor de púrpura
que avança pelos vales;
Porque tu não podes ouvir
chegou a um terço:
as canções da minha obscuridade,
nem podes ver as minhas asas
adejando contra as estrelas;
e não me interessa que ouças ou veja
so que há em mim.
Prefiro estar sempre
sozinho na noite.
Quando sobes ao teu céu,
desço ao meu inferno.
Então chamas-me
através do abismo intransponível
que há entre ti e mim:
- Companheiro ! Camarada !
E eu respondo: -
Porque não quero
que vejas o meu inferno.
Ficarias cego com as chamas,
e asfixiado pelo fumo.
E eu amo demasiado o meu inferno
para te deixar visitá-lo.
Prefiro estar sozinho no meu inferno.
Tu amas a Verdade, a Beleza, a justiça,
e eu para te comprazer
digo que estou de acordo contigo
e que está certo
que ames essas coisas.
Mas, no fundo do meu coração,
rio-me do teu amor por elas.
Contudo, escondo-te o meu riso,
porque prefiro rir-me sozinho.
Meu amigo,
és bom, prudente e sensato;
mais ainda, és perfeito.
Por mim, falo contigo
com sensatez e cautela, mas...
estou louco.
Oculto a minha loucura
com uma máscara.
Prefiro estar louco sozinho.
Meu amigo,
não és meu amigo.
Mas como fazer-te
compreender isto?
O meu caminho
não é o teu caminho,
e, contudo, caminhamos juntos,
de mãos dadas.
Kahlil Gibranin
in "O Louco"
2006/07/17
2006/07/06
2006/07/05

A história da cortina azul...
Pintei-te de azul, como doutras vezes, foi então que me apeteceu contar a tua inebriante história que de inebriante talvez tenha apenas a brisa. Esse compasso que marcas descompassada, que deixa as suas marcas no meu corpo irregular. E é bom lembrar-te assim: ondulante! De veludo! Tocando-me apenas ao de leve e assim acolhendo-me. Sempre a fingir-te ininteligível num vale perdido dentro de mim...
Fui pintando de azul esse teu veludo até ao dia em que apareceste noutra tela, plágio de brisa leve. Tela bela, bela tela encerrou os aplausos de quem leu essa tonalidade azul. Os músculos a embaterem e a darem-te uma forma diferente.
Voltaste, julguei que com sabor adúltero. Contudo, encobriste-me, envolveste-me no teu refúgio quase feérico. As minhas pálpebras encostadas no escuro, permitiram-me que me guiasses assim. Reencontramo-nos num momento chamado ternura, escondido debaixo da minha cama. Continuo a pintar-te de azul, deixo que me guies, incansável, sob o teu manto de ternura.
Porque será? Serão que as palavras vos repudiam? Ou será que refulgem e temeis o ardor do seu brilho? A lágrima sentada na porta da noite descai suavemente, recolhendo-se aos seus recantos ondulantes. O sorri esbate-se escada acima, também ele preferiu encabulado a sombra da cortina de veludo azul. Ajoelhou-se na ausência a presença do nada.
2006/06/18
Feiticeiro
Conhecendo-te, enxergo os espinhos que deixas no tecido acetinado verde-salsa. Pronuncio de Natureza íngreme, cortante, que intencionalmente escondes com o teu sorriso lavado. Ainda bem que os elementos me deixam falar-te assim, porque falar-te assim é tudo que tenho, no seio desse sorriso feiticeiro. Feiticeiro, que não é a primeira vez que assim te chamo. E que tu não ouves. E que ninguém sabe. Rasgam-me esses teus murmúrios com que enganas quem quer ser enganado. Aos poucos vejo morrer quem quer viver, no teu feitiço.
Arrogante ego, trespassas com a tua faca disfarçada de pena os corações menos atentos.
Encubram-se, com um manto de noite, ou de indiferença! Continuarmos a ser é o que nos resta, é o que nos torna grandes nesses pequenos suspiros de dor.
Conhecendo-te, enxergo os espinhos que deixas no tecido acetinado verde-salsa. Pronuncio de Natureza íngreme, cortante, que intencionalmente escondes com o teu sorriso lavado. Ainda bem que os elementos me deixam falar-te assim, porque falar-te assim é tudo que tenho, no seio desse sorriso feiticeiro. Feiticeiro, que não é a primeira vez que assim te chamo. E que tu não ouves. E que ninguém sabe. Rasgam-me esses teus murmúrios com que enganas quem quer ser enganado. Aos poucos vejo morrer quem quer viver, no teu feitiço.
Arrogante ego, trespassas com a tua faca disfarçada de pena os corações menos atentos.
Encubram-se, com um manto de noite, ou de indiferença! Continuarmos a ser é o que nos resta, é o que nos torna grandes nesses pequenos suspiros de dor.
2006/06/10
2006/04/12
2006/03/26
Quantos destes sorrisos não são fabricados nas nuvens?
Nuvens do céu, fiapos de atmosfera ímpios.
Renego o ar condensado que nos turvou a visão.
Renego estes sorrisos, dissipados, no escorrer da altitude.
E o ruído escangalhado dos dias,
a lembrar-me do teu medo do silêncio.
Porque insistes em não parar?
Não paras essa emissão,
o amontoado de notas irregulares
que concebem o teu canto.
Tens medo de ouvir...
...ouvir o quê?
O quê?
O quê.
Nuvens do céu, fiapos de atmosfera ímpios.
Renego o ar condensado que nos turvou a visão.
Renego estes sorrisos, dissipados, no escorrer da altitude.
E o ruído escangalhado dos dias,
a lembrar-me do teu medo do silêncio.
Porque insistes em não parar?
Não paras essa emissão,
o amontoado de notas irregulares
que concebem o teu canto.
Tens medo de ouvir...
...ouvir o quê?
O quê?
O quê.
2006/02/24
2006/02/14
Dos dias de ontem
Ainda me lembro dos tijolos salteados da praça.
As notas não cabem aqui, agarravam as vibrações das partículas,
Como às mãos do parapeito que dá para o mar.
Era assim que as pessoas se encontravam umas às outras:
na praça...
...várias camadas de excipientes sobrepostas.
O travo insípido da madrugada sabia a silêncio e a algumas luzes acesas.
As teclas esbatidas da impressão dos dedos,
o som arremessado por de entre os dentes que rangem.
Calculados os segundos, enchiam os cafés de estômago, e o fumo de pulmões,
o mimetismo dos dias, o ritmo.
Não chorei para que fizesse sentido, não foi por isso.
A sucessão destes momentos na praça,
no meu inspirar marginal,
padronizava a ausência de busca pelo principio activo da existência.
E eu sentia falta disso.
Ainda me lembro dos tijolos salteados da praça.
As notas não cabem aqui, agarravam as vibrações das partículas,
Como às mãos do parapeito que dá para o mar.
Era assim que as pessoas se encontravam umas às outras:
na praça...
...várias camadas de excipientes sobrepostas.
O travo insípido da madrugada sabia a silêncio e a algumas luzes acesas.
As teclas esbatidas da impressão dos dedos,
o som arremessado por de entre os dentes que rangem.
Calculados os segundos, enchiam os cafés de estômago, e o fumo de pulmões,
o mimetismo dos dias, o ritmo.
Não chorei para que fizesse sentido, não foi por isso.
A sucessão destes momentos na praça,
no meu inspirar marginal,
padronizava a ausência de busca pelo principio activo da existência.
E eu sentia falta disso.
2005/12/31
2005/12/30
Tu.
Riste enquanto davas aqueles passos.
Não estudei as respostas do teu corpo.
Mas lembro-me do escorrer do teu riso visceral enquanto davas aqueles passos. Como eu os recordo!...
Como eu os recordo?
Cada passo uma pequena agulha a trespassar o calibre dos meus ossos. Irriguei dentro de mim o teu riso com lágrimas e medula.
Estavas só. Mas a palavra só é a palavra só para ti, nada mais. No dia antes do dia. Foste encontrar-te ali.
Ali reencontraste a dor e eu vi-te.
Temo em ti essa solidão.
Temo-a em mim, entranhada no meu egocentrismo cutâneo.
Reconheço que a tua essência cheira a baunilha e não a pobreza.
Reconheço que te banhas num mar muito mais completo que eu, com mais jóias e mais corais. Reconheço-te a brisa dos passos.
Reconheço-te nos passos que eu não teria dado.
Reconheço aqueles que, como tu, caminham.
Aqueles que como tu caminham.
Reconheço os que se repetem, como tu e eu.
Reconhecer não é tornar-te importante, mas visível.
Agora já te conseguimos ver.
Nunca ninguém te pôde roubar a ausência de luz.
Riste enquanto davas aqueles passos.
Não estudei as respostas do teu corpo.
Mas lembro-me do escorrer do teu riso visceral enquanto davas aqueles passos. Como eu os recordo!...
Como eu os recordo?
Cada passo uma pequena agulha a trespassar o calibre dos meus ossos. Irriguei dentro de mim o teu riso com lágrimas e medula.
Estavas só. Mas a palavra só é a palavra só para ti, nada mais. No dia antes do dia. Foste encontrar-te ali.
Ali reencontraste a dor e eu vi-te.
Temo em ti essa solidão.
Temo-a em mim, entranhada no meu egocentrismo cutâneo.
Reconheço que a tua essência cheira a baunilha e não a pobreza.
Reconheço que te banhas num mar muito mais completo que eu, com mais jóias e mais corais. Reconheço-te a brisa dos passos.
Reconheço-te nos passos que eu não teria dado.
Reconheço aqueles que, como tu, caminham.
Aqueles que como tu caminham.
Reconheço os que se repetem, como tu e eu.
Reconhecer não é tornar-te importante, mas visível.
Agora já te conseguimos ver.
Nunca ninguém te pôde roubar a ausência de luz.
2005/12/22
Despedida
Até que enfim... Os Irras e os Ufas caminham de mãos dadas para bem longe, por detrás daquela colina já não vejo essas interjeições ansiosas de outros tempos, só o suspiro: o compor do oxigénio no meu sangue. A respiração serena restabelece-se em comunhão com o travo amargo da noite, o aroma gélido da solidão, o saber que nunca mais naquele cume surgirá de novo aquele sol.
Percepção demorada, em lenta câmara, nunca lá esteve, afinal eras tu que mo mostravas, ainda eu pequena, ainda eu absorvida naqueles sonhos idílicos, naqueles prados de ironia cintilante, eras tu naquele pedaço de papel dourado recortado, que me mostravas o sol, e era o sol que eu via. Agora sei que ele nasce do lado oposto, não naquele cume, nem no mar, nem na brisa.
Ainda é na sua existência, que sinto que me sinto por entre os insterstícios do tempo. O que fez ele com o sol e comigo e com o mundo?
O sol nasce sempre. Do lado oposto, irradiando sorrisos inesperados a cada segundo que eu não vejo.
O mim e o tempo, sou menos pequena, menos dourada, menos caminhante mas mais arrepiada.
O mundo é quem me arrepia, com o seu sopro e com os seus gritos.
Gritos que perduram, sopro que vagueia.
Até que enfim... Os Irras e os Ufas caminham de mãos dadas para bem longe, por detrás daquela colina já não vejo essas interjeições ansiosas de outros tempos, só o suspiro: o compor do oxigénio no meu sangue. A respiração serena restabelece-se em comunhão com o travo amargo da noite, o aroma gélido da solidão, o saber que nunca mais naquele cume surgirá de novo aquele sol.
Percepção demorada, em lenta câmara, nunca lá esteve, afinal eras tu que mo mostravas, ainda eu pequena, ainda eu absorvida naqueles sonhos idílicos, naqueles prados de ironia cintilante, eras tu naquele pedaço de papel dourado recortado, que me mostravas o sol, e era o sol que eu via. Agora sei que ele nasce do lado oposto, não naquele cume, nem no mar, nem na brisa.
Ainda é na sua existência, que sinto que me sinto por entre os insterstícios do tempo. O que fez ele com o sol e comigo e com o mundo?
O sol nasce sempre. Do lado oposto, irradiando sorrisos inesperados a cada segundo que eu não vejo.
O mim e o tempo, sou menos pequena, menos dourada, menos caminhante mas mais arrepiada.
O mundo é quem me arrepia, com o seu sopro e com os seus gritos.
Gritos que perduram, sopro que vagueia.
2005/12/14
Fundiu o seu corpo com a relva,
O tom inquieto da melanina, beijada pelo sol...
A pele a cobrir-se de verde,
o toque impregnado do brilho latejante ,
o perfume inconfundível,
esse jazer disfarçado de sorriso a montante.
A perfeita simbiose: as veias, os vasos.
A raiz e o cabelo indistinguivel.
A captação do sol, o respirar, o absorver, a água, chuvas, terra, tudo, num só.
Tudo para ter tudo.
E ser um só que nada perde.
Terra, vegetal, corpo, humano,
ocultando a margem ao rio.
O tom inquieto da melanina, beijada pelo sol...
A pele a cobrir-se de verde,
o toque impregnado do brilho latejante ,
o perfume inconfundível,
esse jazer disfarçado de sorriso a montante.
A perfeita simbiose: as veias, os vasos.
A raiz e o cabelo indistinguivel.
A captação do sol, o respirar, o absorver, a água, chuvas, terra, tudo, num só.
Tudo para ter tudo.
E ser um só que nada perde.
Terra, vegetal, corpo, humano,
ocultando a margem ao rio.
2005/11/14
Não escrevo.
Não escrevo.
Não quero dizer mais que há mãos elásticas, ressuscitadas,
a consumirem-me: simbioses com os meus tornozelos, arrepios de dor.
Deitada, com o rosto colado ao asfalto áspero,
é assim que a sua ausência de olhos me quer ver.
Não quero mais imprimir esse sabor corrosivo nos meus dedos,
não quero mais que as palavras sucumbam num mar deste travo.
Não escrevo.
Não quero dizer mais que há mãos elásticas, ressuscitadas,
a consumirem-me: simbioses com os meus tornozelos, arrepios de dor.
Deitada, com o rosto colado ao asfalto áspero,
é assim que a sua ausência de olhos me quer ver.
Não quero mais imprimir esse sabor corrosivo nos meus dedos,
não quero mais que as palavras sucumbam num mar deste travo.
2005/10/27

Mercedes!!! Onde estiveste? Como foi possível? Nem consigo imaginar-te assim, tão só, tão derradeiramente só, depois de tudo o que me deste, depois do quanto preencheste muitos dos meus vazios com a tua voz!
Tão espalhada pelo mundo, e tão cheia de ausências em cima de uns lençóis, tanto tempo. Ainda bem que te aproximaste Dele, só isso me faz despoletar o sorriso esmorecido. Oh Mercedes... ouço as tuas palavras e sei que jamais existirá algo que as consiga arrancar de mim: Es tan grande, la vida... Me he dado cuenta de que la tomamos muy a la ligera.
Ouço repetidamente o teu eco quente: No te entregues corazón libre....
Ainda bem que voltaste.
2005/10/22
A tua pele, tão doce, tão primaveril,
embrulhada no cobertor intenso,
quente de Outono... encostado a mim.
O ardor da chuva ácida, respingando,
tentando pousar nas minhas glândulas,
mas sempre lá fora, lá fora, o lá fora.
E lá fora estava eu e os meus electrões,
a fugirem de mim, do momento,
de tudo que era o ali.
As veias a emergirem da pele transparente, azuis, como o sangue vermelho, verdadeiras. O vazio ansioso a arfar, encostando-se à minha testa, provocante.
Querer tanta coisa, e ser tudo ao mesmo tempo, e tentar sê-lo, e falhar...
Não ser vento, nem chuva, nem mar, nem rio,
Ser só gotas, ou sopros incompletos...
Querer dizer-te adeus e abraçar-te,
E fundir os meus músculos nos teus.
Chorar, não com lágrimas, mas com água,
Aquilo pelo que não se chora: inexistência.
embrulhada no cobertor intenso,
quente de Outono... encostado a mim.
O ardor da chuva ácida, respingando,
tentando pousar nas minhas glândulas,
mas sempre lá fora, lá fora, o lá fora.
E lá fora estava eu e os meus electrões,
a fugirem de mim, do momento,
de tudo que era o ali.
As veias a emergirem da pele transparente, azuis, como o sangue vermelho, verdadeiras. O vazio ansioso a arfar, encostando-se à minha testa, provocante.
Querer tanta coisa, e ser tudo ao mesmo tempo, e tentar sê-lo, e falhar...
Não ser vento, nem chuva, nem mar, nem rio,
Ser só gotas, ou sopros incompletos...
Querer dizer-te adeus e abraçar-te,
E fundir os meus músculos nos teus.
Chorar, não com lágrimas, mas com água,
Aquilo pelo que não se chora: inexistência.
2005/09/18
Quero um daqueles sonhos que ficam para sempre,
quero um desses sonhos que se pousa no granito dos bancos de jardim,
daqueles em que se podem estender até ao rio,
e ficar ali a olhá-lo,
como se fosse meu e ao mesmo tempo pertencesse à turbulência das águas.
Nem as mãos que abro como asas,
para pousar na superfície rugosa da minha existência,
chegam para sustentar esse sonho, que é a ausência destas lágrimas.
Nem esse voo liberto, nem esses sentimentos alados na minha boca,
São suficientes para te ter aqui comigo.
Onde é que o rio encontra o mar e os sonhos se misturam com os peixes?
Quero embarcar na corrente fluvial com odor a maresia e rasto de piscares de olhos feéricos, a escorrer de ilusão e conforto.
quero um desses sonhos que se pousa no granito dos bancos de jardim,
daqueles em que se podem estender até ao rio,
e ficar ali a olhá-lo,
como se fosse meu e ao mesmo tempo pertencesse à turbulência das águas.
Nem as mãos que abro como asas,
para pousar na superfície rugosa da minha existência,
chegam para sustentar esse sonho, que é a ausência destas lágrimas.
Nem esse voo liberto, nem esses sentimentos alados na minha boca,
São suficientes para te ter aqui comigo.
Onde é que o rio encontra o mar e os sonhos se misturam com os peixes?
Quero embarcar na corrente fluvial com odor a maresia e rasto de piscares de olhos feéricos, a escorrer de ilusão e conforto.
2005/09/14

Pele, corpo nu, e água turva envolvendo-o, escondendo-o: apertas as mãos contra os olhos, olhos cansados, olhos aguçados que te fazem verter esse líquido vigorante, que escorre enleando, misturando-se com a água que banha o teu abismo. Escorre para onde a gravidade o puxa, no seio daquilo que é belo e onde existe algo mais belo. No centro de um planeta está outro, e as chamas solidificaram e são feitas desse magma que é rocha ou que és tu dentro de ti. Tudo em ti tão natural, como se natural quisesse dizer apocalíptico. E só quero puxar-te para aqui, desvendar-te as mãos e os olhos, as sobrancelhas molhadas, e o teu receio indiscriminado, confundido com a tua luz. Queria tanto aninhar-me na tua luz, tanto...
2005/09/06

Calçada
Passo dos dedos na calçada,
e cada uma das suas peças
como prolongamento dos meus dedos,
e os meus dedos sorvessem a vida.
Toque inequívoco, no chão, nos passos,
a saber a terra e a tudo, nos meus nervos, nas entranhas.
Calçada, rua, solooooooooooooooooo.....
Como me delicio com o seu toque,
textura enrugada sob mim,
lágrima enrolada na areia dos sapatos.
Passeios de mãos dadas, a arranharem-me a pele,
E tu e eu e nós e todos e tanto, ali.
Eu a calçada, o mundo.
2005/09/01
Virei a esquina e vislumbrei a Sagrada Família majestosa, incompreendida, invadida e foi quando tive aquela sensação de escuridão apesar das pálpebras abertas... como naquele dia de Agosto arredado, em cima da cerejeira a tropeçar na incandescência do sol. Ali ajoelhada, diante de mim, a sua grandiosidade catedralesca, nascida de pequeno fragmento da genialidade de um só homem. Esse homem que emanava uma sensibilidade devastadora e que ninguém tocava... alguém para quem a palavra terminou debaixo dos carris metálicos de uma existência inacabada.
Apenas um olhar pode provocar essa mesma sensação que hoje evoco: o mesmo negro, que pode ser os meus olhos fechados a cair de uma escada, a surgir inesperadamente ao virar da esquina. Esse sentir que nem de lágrima se disfarça, é tão só um cambalear psicótico de encontro às paredes feitas de músculo cardíaco que aqui encerro... assim tão longe da luz. E esse encontro, ao virar da esquina, com uma plaquinha de rebordo de cetim azul com caracteres cravados, que nem sempre identifico, está sempre a um milímetro de mim. Não existe qualquer mistério, sou apenas capaz de me encontrar com ausência de luz tal como muitos e tudo porque as outras pessoas estão do outro lado.
Apenas um olhar pode provocar essa mesma sensação que hoje evoco: o mesmo negro, que pode ser os meus olhos fechados a cair de uma escada, a surgir inesperadamente ao virar da esquina. Esse sentir que nem de lágrima se disfarça, é tão só um cambalear psicótico de encontro às paredes feitas de músculo cardíaco que aqui encerro... assim tão longe da luz. E esse encontro, ao virar da esquina, com uma plaquinha de rebordo de cetim azul com caracteres cravados, que nem sempre identifico, está sempre a um milímetro de mim. Não existe qualquer mistério, sou apenas capaz de me encontrar com ausência de luz tal como muitos e tudo porque as outras pessoas estão do outro lado.
2005/08/28
Adormecer...
Um torpor, para terminar esta noite,
germina pelos recantos da minha alma
deixada ao acaso da vida sem aviso.
É por não ter presenças concretas aqui,
excepto essa ascensão invertida de cócegas
a roçar no meu sossego, que me vou deitar,
sempre sem saber qual o pensamento com que me irei cobrir,
nem ao lado de que lâmina afiada do meu ser me irei aconchegar:
a sina de quem, errante ou não, teima em persistir amando.
Um torpor, para terminar esta noite,
germina pelos recantos da minha alma
deixada ao acaso da vida sem aviso.
É por não ter presenças concretas aqui,
excepto essa ascensão invertida de cócegas
a roçar no meu sossego, que me vou deitar,
sempre sem saber qual o pensamento com que me irei cobrir,
nem ao lado de que lâmina afiada do meu ser me irei aconchegar:
a sina de quem, errante ou não, teima em persistir amando.
2005/08/24

E depois chegam esses dias, enfeitados com a bruma inequívoca, que cheira a escárnio inteligível em todos os cérebros por aí. O que não falta são cérebros e carne, carne por aí, carne que queima, que se debate ofegante, por um lugar melhor, por mais minutos, por mais horas inventadas, estropiadas. O que não falta é carne e o que não falta é alma... nem carne, nem alma, nem coração. Nada parece faltar. Nem se vai embora esse debate cruel, entre os vales e as montanhas, não desaparecem os vales que querem chegar às montanhas nem as montanhas que se querem desprover da sua imponente e irredutível beleza só porque se sonharam vales um dia.
Esquecem-se mesmo de que são banhados pela mesma água? Que são a mesma carga positiva, em qualquer canto, a atrair a carga negativa? Em qualquer pulmão, em qualquer cristal, em qualquer punhado de terra? Quando me esqueço disto, e são muitas as vezes, em que os fiapos de tudo o que é resto estão impregnados na minha existência, em que sei que sou menos. Esqueço-me que tudo tende a anular-se para se estabilizar e que isso significa vencer.
E chegam mais dias em que sei que choro só porque parecem não existir sinapses a levarem-me até junto de ti, mas desfiladeiros, intransponíveis pelo meu constante receio, por tudo aquilo que é orgânico em mim e que, mesmo sem querer, me esmaga. E escorre o sangue em vez da metafísica, e escorrem as lágrimas em vez dos números e transpiro em vez de pensar. E sinto, de uma forma tão dementemente avassaladora, como caminhar sobre bocados de vidro cortantes, já banhados no meu sangue. E no fundo, tudo se conduz a uma demência temporária e somática que se nutre graças a um somatório enxovalhado de páginas insignificantes.
2005/08/12

Nós
O ar deslizou, levemente comprimido pelos teus lábios, que incrustaram o seu travo doce nas partículas dessa brisa que insurgiu do teu suspiro azul.
Moléculas que se conjugaram, naquela noite indiferente, com os meus receptores desprevenidos, emulsionando todos os perfumes entrenhados na minha pele geometricamente desenhada para te tocar.
Sentia algumas camadas da tua epiderme, sob os meus dentes, débeis, subjugadas à inquietação do meu desejo envolvido nas tuas pétalas polvilhadas de ternura.
E foi no céu, que os meus perfumes se cruzaram com o teu suspiro entrelaçando-se na fragilidade do meu toque no teu... então desceram sobre nós na forma da palavra amor.
2005/08/06
Beleza
Imagino-a como um ponto denso e cerrado,
e ao mesmo tempo uma mancha inteligível,
caída na graça de cada ser.
Difícil será encontrar aquele
que conseguiu transpor os seus sentidos para lá dela...
É uma estrela, é um mar, é um sol, é uma luz,
Que todos conseguem sentir: sístoles em uníssono!
Ninguém parece poder tocar-lhe,
mas todos se tocam, todos se sentam no mesmo banco de jardim com ela.
Todos caminham na rua com ela por perto.
Enroscada em cada fio de cada conjunto de cabelos,
Dorme com todos, todos aqueles com pele e ouvidos e olhos e boca.
Ouvi um segredo, que dizia,
que para conquistarmos o mundo,
bastava saber senti-la, ainda que a fingir.
Eu queria apenas soprar o mansinho oxigénio,
ateando esse fogo que reside em nela,
e que nas pontas dos meus dedos foi um dia proscrito.

Imagino-a como um ponto denso e cerrado,
e ao mesmo tempo uma mancha inteligível,
caída na graça de cada ser.
Difícil será encontrar aquele
que conseguiu transpor os seus sentidos para lá dela...
É uma estrela, é um mar, é um sol, é uma luz,
Que todos conseguem sentir: sístoles em uníssono!
Ninguém parece poder tocar-lhe,
mas todos se tocam, todos se sentam no mesmo banco de jardim com ela.
Todos caminham na rua com ela por perto.
Enroscada em cada fio de cada conjunto de cabelos,
Dorme com todos, todos aqueles com pele e ouvidos e olhos e boca.
Ouvi um segredo, que dizia,
que para conquistarmos o mundo,
bastava saber senti-la, ainda que a fingir.
Eu queria apenas soprar o mansinho oxigénio,
ateando esse fogo que reside em nela,
e que nas pontas dos meus dedos foi um dia proscrito.
2005/08/04
Visão
Vi-te: um relance do tempo, que preencheu o meu olhar.
E fossem todas as visões cascatas ascendentes,
efusões de gotas comemorando o seu esplendor,
o seu brilho intenso, que exulta como quem agride,
na soma das suas formas de beleza e de júbilo.
Não. Essa tua visão inebriante que cortou, dilacerou, sorveu
em gestos proteicos toda a inocência daquele meu dia.,
esse trespasse de luz através dos meus olhos,
enrugou o meu coração até ao lixo.
Depois sentou-se calma a olhar o mar,
o mar ébrio de tantos olhares, menos do meu,
que se arrasta ainda nas pedras, no cimento da rua.
Mas para que me ouças a voz cansada: não vou ficar por aqui!
O aqui é um limite rente, transponível.
Vi-te: um relance do tempo, que preencheu o meu olhar.
E fossem todas as visões cascatas ascendentes,
efusões de gotas comemorando o seu esplendor,
o seu brilho intenso, que exulta como quem agride,
na soma das suas formas de beleza e de júbilo.
Não. Essa tua visão inebriante que cortou, dilacerou, sorveu
em gestos proteicos toda a inocência daquele meu dia.,
esse trespasse de luz através dos meus olhos,
enrugou o meu coração até ao lixo.
Depois sentou-se calma a olhar o mar,
o mar ébrio de tantos olhares, menos do meu,
que se arrasta ainda nas pedras, no cimento da rua.
Mas para que me ouças a voz cansada: não vou ficar por aqui!
O aqui é um limite rente, transponível.
2005/07/26
Cobri-me com esse manto,
de pele nua de mulher,
e caminhei nas ruas, leve,
pés alados como a brisa.
Reencontrei em cada passo o meu caminhar,
convidei as provocantes montras para jantar.
Já falei da brisa nos meus pés,
o ar o vento, meus vassalos,
serviram-me escaldada a sensação perdida...
...encontrar-me ali, para o mundo.
de pele nua de mulher,
e caminhei nas ruas, leve,
pés alados como a brisa.
Reencontrei em cada passo o meu caminhar,
convidei as provocantes montras para jantar.
Já falei da brisa nos meus pés,
o ar o vento, meus vassalos,
serviram-me escaldada a sensação perdida...
...encontrar-me ali, para o mundo.
2005/07/22
MEU AMIGO
MEU AMIGO, não sou o que pareço.
A aparência
é apenas um vestido que levo,
um vestido cuidadosamente urdido
que me protege das tuas perguntas,
e a ti do meu desinteresse.
O «eu» que há em mim,
meu amigo,
vive na casa do silêncio,
e ali ficará sempre,
irreflectido, impraticável.
Não te levarei a acreditar no que digo,
nem a confiar no que faço,
porque as minhas palavras
mais não são que os teus próprios pensamentos
convertidos em som,
e as minhas obras
são as tuas próprias esperanças
materializadas em actos.
Quando dizes:
- O vento Sopra de Leste, digo:
- Sim, sopra sempre de Leste;
mas não quero que saibas
que então o meu espírito
não se ocupa do vento,
mas do mar.
Tu não podes entender os meus pensamentos,
filho do mar,
nem me interessa que os compreendas.
Prefiro continuar sozinho
com o mar.
Meu amigo,
quando para ti é dia,
para mim é noite;
mas nem por isso deixo de falar-te
da luz do dia que banha os cumes
nem da sombra cor de púrpura
que avança pelos vales;
Porque tu não podes ouvir
chegou a um terço:
as canções da minha obscuridade,
nem podes ver as minhas asas
adejando contra as estrelas;
e não me interessa que ouças ou vejas
o que há em mim.
Prefiro estar sempre
sozinho na noite.
Quando sobes ao teu céu,
desço ao meu inferno.
Então chamas-me
através do abismo intransponível
que há entre ti e mim:
- Companheiro ! Camarada !
E eu respondo: -
Porque não quero
que vejas o meu inferno.
Ficarias cego com as chamas,
e asfixiado pelo fumo.
E eu amo demasiado o meu inferno
para te deixar visitá-lo.
Prefiro estar sozinho no meu inferno.
Tu amas a Verdade, a Beleza, a justiça,
e eu para te comprazer
digo que estou de acordo contigo
e que está certo
que ames essas coisas.
Mas, no fundo do meu coração,
rio-me do teu amor por elas.
Contudo, escondo-te o meu riso,
porque prefiro rir-me sozinho.
Meu amigo,
és bom, prudente e sensato;
mais ainda, és perfeito.
Por mim, falo contigo
com sensatez e cautela, mas...
estou louco.
Oculto a minha loucura
com uma máscara.
Prefiro estar louco sozinho.
Meu amigo,
não és meu amigo.
Mas como fazer-te
compreender isto?
O meu caminho
não é o teu caminho,
e, contudo, caminhamos juntos,
de mãos dadas.
Kahlil Gibran
in O Louco
MEU AMIGO, não sou o que pareço.
A aparência
é apenas um vestido que levo,
um vestido cuidadosamente urdido
que me protege das tuas perguntas,
e a ti do meu desinteresse.
O «eu» que há em mim,
meu amigo,
vive na casa do silêncio,
e ali ficará sempre,
irreflectido, impraticável.
Não te levarei a acreditar no que digo,
nem a confiar no que faço,
porque as minhas palavras
mais não são que os teus próprios pensamentos
convertidos em som,
e as minhas obras
são as tuas próprias esperanças
materializadas em actos.
Quando dizes:
- O vento Sopra de Leste, digo:
- Sim, sopra sempre de Leste;
mas não quero que saibas
que então o meu espírito
não se ocupa do vento,
mas do mar.
Tu não podes entender os meus pensamentos,
filho do mar,
nem me interessa que os compreendas.
Prefiro continuar sozinho
com o mar.
Meu amigo,
quando para ti é dia,
para mim é noite;
mas nem por isso deixo de falar-te
da luz do dia que banha os cumes
nem da sombra cor de púrpura
que avança pelos vales;
Porque tu não podes ouvir
chegou a um terço:
as canções da minha obscuridade,
nem podes ver as minhas asas
adejando contra as estrelas;
e não me interessa que ouças ou vejas
o que há em mim.
Prefiro estar sempre
sozinho na noite.
Quando sobes ao teu céu,
desço ao meu inferno.
Então chamas-me
através do abismo intransponível
que há entre ti e mim:
- Companheiro ! Camarada !
E eu respondo: -
Porque não quero
que vejas o meu inferno.
Ficarias cego com as chamas,
e asfixiado pelo fumo.
E eu amo demasiado o meu inferno
para te deixar visitá-lo.
Prefiro estar sozinho no meu inferno.
Tu amas a Verdade, a Beleza, a justiça,
e eu para te comprazer
digo que estou de acordo contigo
e que está certo
que ames essas coisas.
Mas, no fundo do meu coração,
rio-me do teu amor por elas.
Contudo, escondo-te o meu riso,
porque prefiro rir-me sozinho.
Meu amigo,
és bom, prudente e sensato;
mais ainda, és perfeito.
Por mim, falo contigo
com sensatez e cautela, mas...
estou louco.
Oculto a minha loucura
com uma máscara.
Prefiro estar louco sozinho.
Meu amigo,
não és meu amigo.
Mas como fazer-te
compreender isto?
O meu caminho
não é o teu caminho,
e, contudo, caminhamos juntos,
de mãos dadas.
Kahlil Gibran
in O Louco
2005/07/21
Um dia estava a olhar,
olhava como quem não olha,
sem vontade nos olhos!
No entanto, nu cume deste sentido,
encontrei a tua visão...
...uma visão quieta e distante.
Fizeste-me parar sem parares um segundo!
E esse descernimento,
dessa tua convicta atenção,
trouxe-me apenas a certeza
de que não havia de partir
sem ta roubar!
olhava como quem não olha,
sem vontade nos olhos!
No entanto, nu cume deste sentido,
encontrei a tua visão...
...uma visão quieta e distante.
Fizeste-me parar sem parares um segundo!
E esse descernimento,
dessa tua convicta atenção,
trouxe-me apenas a certeza
de que não havia de partir
sem ta roubar!
2005/07/20
Sentei-me aqui, como de costume,
o costume brando de te olhar o olhar estudado,
onde gentilmente me sorriste, com esse sorriso pontiagudo...
que fere de tão intenso e que nasce e morre no teu rosto,
encostado ao vidro, despido de enredos e intrigas.
E o que posso eu esperar da vida,
deste caminho todo que percorro abstractamente?
O que posso esperar dela?
Se tudo o que ela me ensinou foi a apaixonar-me pela simplicidade destes momentos?
o costume brando de te olhar o olhar estudado,
onde gentilmente me sorriste, com esse sorriso pontiagudo...
que fere de tão intenso e que nasce e morre no teu rosto,
encostado ao vidro, despido de enredos e intrigas.
E o que posso eu esperar da vida,
deste caminho todo que percorro abstractamente?
O que posso esperar dela?
Se tudo o que ela me ensinou foi a apaixonar-me pela simplicidade destes momentos?
2005/07/17
Mutação
Expirou.
Edificado com pedaços fictícios:
a sensualidade, a confiança, o arrojo,
o balanço perfeito entre a determinação e a indecisão atraente,
uma leve dose de mistério, de inocência
e a uma inteligência exacerbada, mencionada, registada.
Pousou noutro cantinho.
Aninhou-se, borrifou umas gotas de perfume fádico
sobre os ombros nus e lisos.
Libertou o olhar hipnótico
enfeixado com estilhaços da sua existência.
Renasceu com a beleza maior e mais falsa.
Emana diariamente o seu sorriso,
onde esconde, atrás de uma cortina áspera, agulhas afiadas
para afastar todos os mundos do seu canto.
Só sei de Dezembro.
Sei das unhas de metal a rasgarem a carne das minhas costas,
do sangue a chegar a um lençol preto.
Foi o que precisei, de algo que
me fizesse sangrar como uma doença real,
para saber que tinha sido o seu fim ali.
Expirou.
Edificado com pedaços fictícios:
a sensualidade, a confiança, o arrojo,
o balanço perfeito entre a determinação e a indecisão atraente,
uma leve dose de mistério, de inocência
e a uma inteligência exacerbada, mencionada, registada.
Pousou noutro cantinho.
Aninhou-se, borrifou umas gotas de perfume fádico
sobre os ombros nus e lisos.
Libertou o olhar hipnótico
enfeixado com estilhaços da sua existência.
Renasceu com a beleza maior e mais falsa.
Emana diariamente o seu sorriso,
onde esconde, atrás de uma cortina áspera, agulhas afiadas
para afastar todos os mundos do seu canto.
Só sei de Dezembro.
Sei das unhas de metal a rasgarem a carne das minhas costas,
do sangue a chegar a um lençol preto.
Foi o que precisei, de algo que
me fizesse sangrar como uma doença real,
para saber que tinha sido o seu fim ali.
II.
A alma vai palpitando,
numa cadência triste e sentida.
De cruel conhece o mundo,
um punhal da bruma emergido.
Nos seus cantos sente o vento,
uma manta generosa de frio.
Dos seus dedos jorra sentido,
uma mão inerte que a morte eterniza.
Saltitante e a cores,
num corpo que vagueia sem ir,
transbordante de destino
e a sorrir de sonho...
É neste dia, que a fingir, é minha.
Toco-lhe com a consciência.
Beijo-a com a sensação.
Arrasto-a comigo no perdurar do tempo.
A alma vai palpitando,
numa cadência triste e sentida.
De cruel conhece o mundo,
um punhal da bruma emergido.
Nos seus cantos sente o vento,
uma manta generosa de frio.
Dos seus dedos jorra sentido,
uma mão inerte que a morte eterniza.
Saltitante e a cores,
num corpo que vagueia sem ir,
transbordante de destino
e a sorrir de sonho...
É neste dia, que a fingir, é minha.
Toco-lhe com a consciência.
Beijo-a com a sensação.
Arrasto-a comigo no perdurar do tempo.
2005/05/29
Junto ao rio passa-se de um modo desigual.
Uns passam a amar.
Outros passam presos nas suas considerações metafísicas.
Outros passam e quedam,
Dando oportunidade ao rio para os fazer sentirem-se menos.
Outros permitem-se passar indiferentes ao mundo.
Mas junto ao rio não se passa como se passa na rua.
São os ares do rio, concretos, que se tocam,
Inspirando a liberdade de cada um passar apenas com aquilo que é,
Expirando o peso de não se ter aquilo que não pode ter.
São as correntes do rio com aquilo que nelas se deposita:
Noites de amor, lágrimas, sabores, cópias perdidas de pessoas,
Todos encurralados no compasso do tempo.
Uns passam a amar.
Outros passam presos nas suas considerações metafísicas.
Outros passam e quedam,
Dando oportunidade ao rio para os fazer sentirem-se menos.
Outros permitem-se passar indiferentes ao mundo.
Mas junto ao rio não se passa como se passa na rua.
São os ares do rio, concretos, que se tocam,
Inspirando a liberdade de cada um passar apenas com aquilo que é,
Expirando o peso de não se ter aquilo que não pode ter.
São as correntes do rio com aquilo que nelas se deposita:
Noites de amor, lágrimas, sabores, cópias perdidas de pessoas,
Todos encurralados no compasso do tempo.
2005/05/09
Encontrei-te mais uma vez, abandonado de palavras minhas... de todas as palavras já ditas e que colava em ti, nem essas que habitavam nos desertos de ninguém, te consigo voltar a dizer.
E não é de vazio que se trata: é dispersão. Dispersão de um emaranhado de teias que rarefeitas rapidamente dão lugar a outras. Que nunca chegam, porque vêm de longe, postas em gotas de água que se esvaem nos sonhos de um amanhã.
E não é de vazio que se trata: é dispersão. Dispersão de um emaranhado de teias que rarefeitas rapidamente dão lugar a outras. Que nunca chegam, porque vêm de longe, postas em gotas de água que se esvaem nos sonhos de um amanhã.
2005/04/17
2005/03/29
Para quê preocupar-me com este vento frio, que tece na minha pele arestas rugosas e despidas? Para quê preocupar-me quando dele me posso abrigar nas paredes pintadas de aconchego?
Pois que o vento continue sem me tocar na pele, nem nos cabelos... que continue e não me faça lembrar dos tempos em que lhe dava a minha existência em dias vazios.
Nada existe sem que para dar receba também, nem o vento. Eu dava-lhe os segredos e ele dava-me vida. Mas isso era "no tempo dos segredos". Agora ele gela-me e eu recuso-o.
Pois que o vento continue sem me tocar na pele, nem nos cabelos... que continue e não me faça lembrar dos tempos em que lhe dava a minha existência em dias vazios.
Nada existe sem que para dar receba também, nem o vento. Eu dava-lhe os segredos e ele dava-me vida. Mas isso era "no tempo dos segredos". Agora ele gela-me e eu recuso-o.
2005/03/12
Sinto.
Mel a escorrer por entre granitos ácidos, íngremes, devagar... gelatinoso. Mel que se avista ao longe, de planícies distantes, abrigadas do sabor doce enjoativo e que só se adivinha desejável quando provado gota a gota, de quando a quando.
Tempo do tempo, em que a brisa olha para trás de dois em dois ou de três em três minutos. Que olha para trás e ainda assim continua a soprar, embora na soma de todos os seus conjuntos de dois ou três minutos e os seus intervalos, prossiga errada.
O gelo e o frio a rasgar estilhaços de terra, de rua e de rocha, a paralisar a seiva e o sangue. O frio e o gelo: nem o seu silêncio os salva. O frio e o gelo que continuam, como o mel e a brisa, porque o mundo parece ter-se habituado.
E se um dia tudo isto gritasse em uníssono, apertando as mãos ásperas e enrugadas do abismo?
Mel a escorrer por entre granitos ácidos, íngremes, devagar... gelatinoso. Mel que se avista ao longe, de planícies distantes, abrigadas do sabor doce enjoativo e que só se adivinha desejável quando provado gota a gota, de quando a quando.
Tempo do tempo, em que a brisa olha para trás de dois em dois ou de três em três minutos. Que olha para trás e ainda assim continua a soprar, embora na soma de todos os seus conjuntos de dois ou três minutos e os seus intervalos, prossiga errada.
O gelo e o frio a rasgar estilhaços de terra, de rua e de rocha, a paralisar a seiva e o sangue. O frio e o gelo: nem o seu silêncio os salva. O frio e o gelo que continuam, como o mel e a brisa, porque o mundo parece ter-se habituado.
E se um dia tudo isto gritasse em uníssono, apertando as mãos ásperas e enrugadas do abismo?
2005/02/18
Foi ontem.
Como não escrever agora? Se estamos em silêncio mas não é no silêncio que eu penso? Se penso em ti e nas tuas palavras?
Tenho que escrever: o único gume que a espada do teu ser tem é o facto de a tua presença ser imprescindível para aqueles que te rodeiam. Não quero que te sintas melhor, quero simplesmente que continues a sentir-te como és.
Como não escrever agora? Se estamos em silêncio mas não é no silêncio que eu penso? Se penso em ti e nas tuas palavras?
Tenho que escrever: o único gume que a espada do teu ser tem é o facto de a tua presença ser imprescindível para aqueles que te rodeiam. Não quero que te sintas melhor, quero simplesmente que continues a sentir-te como és.
2005/02/13
Tempo.
Tenho-me perdido um pouco na dimensão dilacerante do tempo. Hoje essa dimensão perturbou o meu estar desprevenido, chegou de manhã e perdurou pelas horas até agora, intermitente com ida e vinda das pessoas pela casa.
É tão raro dar-me conta dele, que quando somo as suas alterações irremediáveis sou arrastada, é possível apenas que me esconda e que me abrigue em cortinas de água sal... invisíveis. Mas tento contorná-lo, passar despercebida. Visto uma gabardina escura e apago o meu reflexo das vitrinas escuras do tempo. Irremediávelmente, ele encontrar-me-á.
Tenho-me perdido um pouco na dimensão dilacerante do tempo. Hoje essa dimensão perturbou o meu estar desprevenido, chegou de manhã e perdurou pelas horas até agora, intermitente com ida e vinda das pessoas pela casa.
É tão raro dar-me conta dele, que quando somo as suas alterações irremediáveis sou arrastada, é possível apenas que me esconda e que me abrigue em cortinas de água sal... invisíveis. Mas tento contorná-lo, passar despercebida. Visto uma gabardina escura e apago o meu reflexo das vitrinas escuras do tempo. Irremediávelmente, ele encontrar-me-á.
2005/02/06
Para um outro ti, ainda
É ténue a superfície
que manchas de lágrima e sede,
que separa o que és do que mostras ser.
Despe-te desse mundo e mergulha:
envolve-te nas ondas do mar, envolve-te na praia
e na água que chove com o vento.
Que se não te canse esse coração,
que é novo e não velho de tormentas
como pensas acreditar.
É ténue a superfície
que manchas de lágrima e sede,
que separa o que és do que mostras ser.
Despe-te desse mundo e mergulha:
envolve-te nas ondas do mar, envolve-te na praia
e na água que chove com o vento.
Que se não te canse esse coração,
que é novo e não velho de tormentas
como pensas acreditar.
E para ti também escrevi
Assemelho-te a um lume brando,
uma chama que esteve patente
na brasa dum carvão incandescente.
Pareces ficar-te pelo galanteio de alguns sorrisos
em noites frias de Verão.
Pareces ficar-te por dramas representados,
com um só actor, num monólogo de suspiros.
Guardas as rosas, os perfumes e os sabores aconchegantes da vida
para aquecer o dia-a-dia, aos que te rodeiam.
Tens medo. Mas lutas.
Mais que muito.
Assemelho-te a um lume brando,
uma chama que esteve patente
na brasa dum carvão incandescente.
Pareces ficar-te pelo galanteio de alguns sorrisos
em noites frias de Verão.
Pareces ficar-te por dramas representados,
com um só actor, num monólogo de suspiros.
Guardas as rosas, os perfumes e os sabores aconchegantes da vida
para aquecer o dia-a-dia, aos que te rodeiam.
Tens medo. Mas lutas.
Mais que muito.
Escrevi para ti
Balança-te: pés na terra, mãos de água,
pensamentos de estrelas.
Acreditas-te para que te acreditem.
Poderia ser doutro modo?
No fundo, duvidas do que és.
Queres muito ser, demasiado,
com esses teus olhos de ver
fincados nos gestos,
como unhas cravadas na carne.
Mas os gestos balançam,
Como o mundo translada.
Com uma mão tocas nos corações
E com a outra empurra-los para o abismo.
(O abismo onde hoje caiu uma lágrima minha.)
Balança-te: pés na terra, mãos de água,
pensamentos de estrelas.
Acreditas-te para que te acreditem.
Poderia ser doutro modo?
No fundo, duvidas do que és.
Queres muito ser, demasiado,
com esses teus olhos de ver
fincados nos gestos,
como unhas cravadas na carne.
Mas os gestos balançam,
Como o mundo translada.
Com uma mão tocas nos corações
E com a outra empurra-los para o abismo.
(O abismo onde hoje caiu uma lágrima minha.)
2005/02/02
Prova.
Será que é assim tão simples medirem o nosso valor? Uma equação simples, sempre a somar ou a subtrair. Um "mais" diz que somos melhores um "menos" diz que somos piores. Não há grandes variáveis... às vezes até quero esquecer que sou humana, e que vilmente também me arrasto pelos passeios das características menos virtuosas. Menos. Levo um menos.
Será que é assim tão simples medirem o nosso valor? Uma equação simples, sempre a somar ou a subtrair. Um "mais" diz que somos melhores um "menos" diz que somos piores. Não há grandes variáveis... às vezes até quero esquecer que sou humana, e que vilmente também me arrasto pelos passeios das características menos virtuosas. Menos. Levo um menos.
2005/01/24
Fotografia.
Olhei para nós. Havia passado mais de um ano desde que aquela imagem tinha sido, por nós, raptada do tempo equilátero.
Os teus olhos falavam, diziam que queriam escapar por entre o magnetismo daquela noite directamente para a seguinte noite... num passo mágico de adormecer e acordar. Diziam-me que estavas ali e que talvez um futuro inebriado trouxesse de novo aos teus olhos a vontade de falar daquele modo, para mim. Os teus olhos falaram para o futuro, falaram para que, inadvertidamente hoje, pudesse fitá-los, na ausência da tua presença, e me lembrasse que naquele segundo, todos os teus sentidos foram meus. Gritavam: Conseguirás sempre despir a felicidade como despiste hoje os teus receios ingénuos de viver.
Os meus olhos não diziam nada, encostavam-se a um infinito distante, de mágoas adivinhadas. O sorriso do meu rosto vivia o momento, os meus olhos avistavam as paisagens desérticas, ao entardecer, nas arestas geladas da minha almofada triste, nas minhas mãos que sentiriam a falta do teu toque... todo aquele que tinha absorvido antes.
A tua mão na minha cintura, a eterna inocência dos meus olhos fechados para prolongar, no percorrer do sempre, o som ondulante de um “clic”.
Olhei para nós. Havia passado mais de um ano desde que aquela imagem tinha sido, por nós, raptada do tempo equilátero.
Os teus olhos falavam, diziam que queriam escapar por entre o magnetismo daquela noite directamente para a seguinte noite... num passo mágico de adormecer e acordar. Diziam-me que estavas ali e que talvez um futuro inebriado trouxesse de novo aos teus olhos a vontade de falar daquele modo, para mim. Os teus olhos falaram para o futuro, falaram para que, inadvertidamente hoje, pudesse fitá-los, na ausência da tua presença, e me lembrasse que naquele segundo, todos os teus sentidos foram meus. Gritavam: Conseguirás sempre despir a felicidade como despiste hoje os teus receios ingénuos de viver.
Os meus olhos não diziam nada, encostavam-se a um infinito distante, de mágoas adivinhadas. O sorriso do meu rosto vivia o momento, os meus olhos avistavam as paisagens desérticas, ao entardecer, nas arestas geladas da minha almofada triste, nas minhas mãos que sentiriam a falta do teu toque... todo aquele que tinha absorvido antes.
A tua mão na minha cintura, a eterna inocência dos meus olhos fechados para prolongar, no percorrer do sempre, o som ondulante de um “clic”.
2005/01/16
Estou tão sozinha, por vezes... até sinto um arrepio gelado, uma brisa que chega em forma de lágrima e pergunta: como é possível?
É possível sim. Quando passeamos à noite e a olhar as estrelas as vejo sorrir de tão longe! É possível quando molho os lábios com a água salgada das tuas frases impensadas... da insignificância. É tão possível como alguém ter razão nos deixar sozinhos..É possível como doer tanto quando alguém faz por ter razão. Tanto que penso sempre estar sozinha. Nos meus pequenos interesses... estou sozinha quando leio o poema que fala do equilíbrio de Hardy-Wienberg, estou sozinha ao ouvir vezes sem conta Nessun Dorma... ou a Mercedes... a Mercedes... com o coração olhando para o sul, para a dor do seu povo, para as tardes soalheiras e as casa brancas e a paz do sorriso de muitas crianças, a paz do sorriso das pessoas sem pressa da vida. Bem me disse ela, vezes sem conta, que tudo muda, que o tempo é resoluto, que se encarrega de levar tudo. Mas ela também me disse que basta entregarmos os nossos corações para que o nosso mundo não esteja perdido.
E dói pensar que tudo isto é insignificante se não estiver sozinha. Que o que eu sou cá dentro, sou-o sozinha. Que as minhas palavras emudecem os que me rodeiam, ou que chamam apenas alguns risos de troça.
Nem sempre é assim... nem sempre ajo pensando que estou perto, às vezes estou realmente perto.
É possível sim. Quando passeamos à noite e a olhar as estrelas as vejo sorrir de tão longe! É possível quando molho os lábios com a água salgada das tuas frases impensadas... da insignificância. É tão possível como alguém ter razão nos deixar sozinhos..É possível como doer tanto quando alguém faz por ter razão. Tanto que penso sempre estar sozinha. Nos meus pequenos interesses... estou sozinha quando leio o poema que fala do equilíbrio de Hardy-Wienberg, estou sozinha ao ouvir vezes sem conta Nessun Dorma... ou a Mercedes... a Mercedes... com o coração olhando para o sul, para a dor do seu povo, para as tardes soalheiras e as casa brancas e a paz do sorriso de muitas crianças, a paz do sorriso das pessoas sem pressa da vida. Bem me disse ela, vezes sem conta, que tudo muda, que o tempo é resoluto, que se encarrega de levar tudo. Mas ela também me disse que basta entregarmos os nossos corações para que o nosso mundo não esteja perdido.
E dói pensar que tudo isto é insignificante se não estiver sozinha. Que o que eu sou cá dentro, sou-o sozinha. Que as minhas palavras emudecem os que me rodeiam, ou que chamam apenas alguns risos de troça.
Nem sempre é assim... nem sempre ajo pensando que estou perto, às vezes estou realmente perto.
2004/12/29
Palavras à chuva numa tarde...
Apetece-me beber sofregamente o fio líquido que se esvai desta quadra da família e dos afectos. Abandono o resto, tudo além daquilo que era puro, simples e me faz falta. Tudo aquilo além do quanto eu queros estes meus mundos sempre por perto. Repudio os sapatinhso de cristal e as barbas brancas do idosos de faces encarnadas.... Repudio o tempo que tudo muda, resoluto, imparável.
Em mim aprisiono as palavras à chuva de uma tarde, que dispararam sobre mim todos os sonhos que contenho... o rio corre, sim, irredutível, em frente... mas tu não. Não o teu olhar de sereia perdida, encantada, no oceano de lágrimas azuis, felizes. Tu disseste que valho não como ouro, nem diamante, mas sim o sal que se dissolve nos paladares e no sangue, nas secreções, nas vísceras. Diz-me! É por isso que continua a saber bem correr na relva, por isso que mergulho, por isso que digo que aprendo a viver. Para que te orgulhes de mim de uma forma inabalável, dura. És deslumbrante,ainda que nesse teu jeito de lutadora camuflada, esse jeito que surpreende, que viola, que despedaça os nós de mármore que enfrentas. Esse teu jeito que vence impreterivelmente. Não, só isso não te deixo dizer, isso não mudará, não, querida.
2004/12/20
Vagueando o olhar por entre as nuvens que não se esforçavam por esconder a lua, pensava nisto, que me disseste assim em tom de voz passiva atirada ao acaso para as nossas frases. Pensava-o enquanto a pouco e pouco parecia despertar, para este mundo meigo que criei à minha volta, um mundo que eu fiz para me esconder de outros mundos sobrepostos. Caminhava por entre montras da noite, vitrinas despidas, luzes escondidas, sentimentos reguardados. Dentro de mim. E pensava-o, será que é possível mesmo dar um sentido ao porvir? Será mesmo que as pessoas não despejam essas questões pseudo-filosóficas para limarem de uma forma discreta e elegante as aretas afiadas dos seus egos? Provavelmente espero uma resposta estridentemente afirmativa... ninguém é realmente profundo e poucos conseguem saber quais são as verdadeiras questões... tão pouco eu caminho sobre a água da clarividência, algumas das certezas prefiro-as mesmo submersas. O porvir, os ideais, o sonho: murmúrios inaudíveis, irreproduzíveis, distantes... tantas vezes!
2004/12/06
Um piano invisível,
notas que fluem afinadas por sentimentos que não se ouvem...
Uma lágrima ilegível ,
versos egoístas pertencem a todos, não são de ninguém...
Hoje vi essa lágrima escondida no horizonte de alguém não tem sede para lágrimas,
vi nesse olhar a falta daqueles olhares que veêm.
Vi um rosto sujo, senti umas mãos frias, vi um rosto desnudado de orgulho,
um rosto que não se pode abrigar num dia de chuva, um rosto que nunca se pode abrigar.
E tudo isto, surgiu ao longe, como se não pudesse ouvi-lo,
um ecoar breve da dor não-dimensinal dentro de mim.
notas que fluem afinadas por sentimentos que não se ouvem...
Uma lágrima ilegível ,
versos egoístas pertencem a todos, não são de ninguém...
Hoje vi essa lágrima escondida no horizonte de alguém não tem sede para lágrimas,
vi nesse olhar a falta daqueles olhares que veêm.
Vi um rosto sujo, senti umas mãos frias, vi um rosto desnudado de orgulho,
um rosto que não se pode abrigar num dia de chuva, um rosto que nunca se pode abrigar.
E tudo isto, surgiu ao longe, como se não pudesse ouvi-lo,
um ecoar breve da dor não-dimensinal dentro de mim.
2004/12/02
De facto, as horas na faculdade, o estudar, um trabalho que me anda a dar que pensar... tudo isso, não me tem deixado muito tempo meu, muito do (que já era pouco) tempo que me sentava por aqui, nesta cadeira, e passeava-me por poemas e linhas soltas... com o tempo, o tempo parece fugir. Sim posso dar-me ao luxo de usar este tipo de frase, porque mais ningúém, senão eu disfruta verdadeiramente do que aqui está, quando o partilho sorrio.
O trabalho continua amartelar no meu pensamento... ao menos se eu pudesse acrescentar algo novo! Mas sem contacto com a ciência, apenas em contacto com páginas pesadas, nada consigo acrescentar, nem posso.
Apenas disperso entre palavras e ideias já concebidas. Resta-me pois divagar ao sabor daquilo que me fascina e também ao sabor daquilo que faz um reflexo pálido nos meus olhos. Metáforas que me são quase proíbidas e que por vezes parecem ganhar uma certa condescendência. Tenho de escrever como penso que penso sobre o facto de talvez ser bom anotar aquilo que penso. Talvez assim, não descubra muito sobre o mundo, ou sobre a ida e talvez nem dê qualquer tipo de sorriso a ninguém, mas descobrir-me-ei um pouco mais.
O trabalho continua amartelar no meu pensamento... ao menos se eu pudesse acrescentar algo novo! Mas sem contacto com a ciência, apenas em contacto com páginas pesadas, nada consigo acrescentar, nem posso.
Apenas disperso entre palavras e ideias já concebidas. Resta-me pois divagar ao sabor daquilo que me fascina e também ao sabor daquilo que faz um reflexo pálido nos meus olhos. Metáforas que me são quase proíbidas e que por vezes parecem ganhar uma certa condescendência. Tenho de escrever como penso que penso sobre o facto de talvez ser bom anotar aquilo que penso. Talvez assim, não descubra muito sobre o mundo, ou sobre a ida e talvez nem dê qualquer tipo de sorriso a ninguém, mas descobrir-me-ei um pouco mais.
2004/11/24
Já há muito que aqui não vinha. Ao ler assim, nada me apeteceu escrever... coisa de amadores. Vou recolher-me a incontáveis páginas de livros, com conteúdos que muitas vezes nem sei porque tenho de saber... talvez um dia compreenda, talvez um dia compreenda um bocadinho mais. Hoje vou ficar por isto mesmo, meia duzia de palavras sem grande teor mas com votos de voltar em breve e deixar aqui algo mais.
2004/11/14
Deram-me autorização para colocar aqui estas palavras: uma carta de um avô para um neto em convalescência. Eu deliciei-me a lê-la... deliciei-me com a ternura que as palavras trazidas de longe podem carregar com elas. E assim, partilho aqui um momento anónimo, que poderá não interessar a ninguém, mas que acrescentou uma lágrima de carinho ao meu dia. Aqui vai...
"Eu e a avó estamos sempre contigo, tanto na operação, como no teu restabelecimento, pedindo a todos os santos que te melhorem de saúde e de vontade de viver; e assim ajudares o teu pai e a tua mãe, com essa vontade. Amanhã a tua avó, a tua tia e os teus primos vão visitar-te. Eu não vou, mas aceita os meus carinhos e as minhas orações onde estás sempre presente, para que rapidamente melhores e fiques bem, pois o Celta de Vigo tem necessidade de um ponta de lança!
Sabes que a tua mãe e o teu pai sofrem muito com tudo o que se está a passar e não choram para que tu não sofras. Mas vontade não lhes falta, portanto tenta ser forte e ajuda-os, de vez enquando, nesse sentido. Para já, da minha parte conjuntamente com a avó, recebe um grande abraço de amor para a tua recuperação: sem dores e cheia de boa disposição.
Como não posso ir vai a minha presença através desta pequena carta. Um grande abraço do avô amigo que muito te adora.
Há uma canção antiga que nunca esqueci e é assim:
Descansa meu querido descansa,
não te quero despertar,
vou para a cozinha trabalhando,
com vontade de chorar.
A minha mãe cantava-ma e é o que passa com a tua mãe que tanto te quer."
Estas são as pessoas que mais amamos, aquelas das quais não podemos prescindir. Fiquem sempre comigo, por favor!
2004/11/03
Não, normalmente nunca dou por mim a indagar quantas pessoas estarão a pensar em mim num determindado instante. Contudo, é possível que tal como eu penso nelas, as pessoas que fazem parte de mim, me pensem também. Se calhar aquela senhora que ajudo a descer com o bébé do autocarro, talvez se lembre de mim. Talvez aquela amiga de infância, que nunca mais vi, pense em mim. Não sei... importa-me mais que continue a florir os meus pensamentos com todos vós. Que continue a partilhar o que vou tendo convosco. Hoje dei por mim a escrever estas palavras... elas alimentam-me sempre que preciso de um suspiro quente de ternura, sempre que a lágrima está implicita numa glândula escondida, sempre que o sorriso se esbate sobre as folhas que vou rasgando. Hoje foi um desses dias.
2004/10/27
...pense em cada parágrafo de tal forma que a idéia central apareça na primeira linha, a argumentação no meio e a conclusão na última sentença;
Pára de chorar!!! Já te disse!!! Ordeno-te que pares de chorar!!!
Se parasses de chorar, talvez me enternecesses com a tua folha de papel branco, a folha onde te escreves e q escondes por detrás de lágrimas e supiros impensados de dor. Quando choras não ouves.
Então não chores mais, não chores sempre, porque a chorar nunca me ouvirás dizer que gosto de ti.
Pára de chorar!!! Já te disse!!! Ordeno-te que pares de chorar!!!
Se parasses de chorar, talvez me enternecesses com a tua folha de papel branco, a folha onde te escreves e q escondes por detrás de lágrimas e supiros impensados de dor. Quando choras não ouves.
Então não chores mais, não chores sempre, porque a chorar nunca me ouvirás dizer que gosto de ti.
2004/10/24
É por alguns instantes esta sensação de que nas veias corre sangue misturado com ilusão, com vontade e com esperança. A inspiração de uma criança que salta por cima das nuvens cor-de-rosa. No fundo é disto que eu falo, do que pode não ser palpável, do que pode não se beber, do que pode esgueirar-se por entre grãos de poeira. Falo daquilo que também pode encostar-nos a uma parede, tela negra forrada de veludo azul, e espremer-nos até ao fim. Mas do que falo não interessa se não o digo...
.... manhã de Outubro: chuva, tapetes de tule branco, passeios encobertos por mantos de pessoas encasacadas. Sinto-me como se não me sentisse, caminho como se voasse, e acomodo-me no muro de pedra polida resguardada por um alpendre familiar, mas que não pertence a ninguém. Alojo-me na vontade de querer repatir-me e ir de encontro a todos os lados. Quero percorrer caminhos até chegar mais longe e mais alto, onde não estou. Quero invadir cada pessoa com o meu sorriso, o meu gesto, o meu sobrolho fransido.
Mas não vou, não percorro, não invado.Será mesmo que o mundo, que os lugares, que as pessoas já têm suficiente de mim?
.... manhã de Outubro: chuva, tapetes de tule branco, passeios encobertos por mantos de pessoas encasacadas. Sinto-me como se não me sentisse, caminho como se voasse, e acomodo-me no muro de pedra polida resguardada por um alpendre familiar, mas que não pertence a ninguém. Alojo-me na vontade de querer repatir-me e ir de encontro a todos os lados. Quero percorrer caminhos até chegar mais longe e mais alto, onde não estou. Quero invadir cada pessoa com o meu sorriso, o meu gesto, o meu sobrolho fransido.
Mas não vou, não percorro, não invado.Será mesmo que o mundo, que os lugares, que as pessoas já têm suficiente de mim?
2004/10/22
O que é ter isto tudo aqui comigo?
Como espinhos de castanheiro e não de rosa,
acumulados nos meus suspiros vespertinos,
emaranhados nas minhas lágrimas pela noite dentro.
Oh! Quem dera arrastar por aí este corpo baço,
para que só os sorrisos o vissem, para que fosse invisível
a esqueletos fugídios, a interesses de feiticeitos, a estrelas invejosas,
a tudo isto que parecem fábulas de olhares tristes,
olhares molhados pela derrota.
Quem dera conseguir soprar ao mundo,
que rastejo quando ando,
que toda a energia se envolve em mim como setim,
que é macia mas escorrega.
Quem dera que o mundo inspirara,
este ar quente que me abafa,
que por um momento aspirasse
as correntes sujas,que por um momento,
mundo, suportasses o seu asco.
Quem me dera olvidar tudo o que fui, para não ser,
para cobardemente não ser, só um bocadinho, só aqui.
Deixem-me não ser: rosa púpura, estrela invejosa, feiticeiro dúbio, todos!!!
Deixem-me ser invísivel, deixem-me não ser... é só o que eu quero, só um bocadinho,
só aqui.
Como espinhos de castanheiro e não de rosa,
acumulados nos meus suspiros vespertinos,
emaranhados nas minhas lágrimas pela noite dentro.
Oh! Quem dera arrastar por aí este corpo baço,
para que só os sorrisos o vissem, para que fosse invisível
a esqueletos fugídios, a interesses de feiticeitos, a estrelas invejosas,
a tudo isto que parecem fábulas de olhares tristes,
olhares molhados pela derrota.
Quem dera conseguir soprar ao mundo,
que rastejo quando ando,
que toda a energia se envolve em mim como setim,
que é macia mas escorrega.
Quem dera que o mundo inspirara,
este ar quente que me abafa,
que por um momento aspirasse
as correntes sujas,que por um momento,
mundo, suportasses o seu asco.
Quem me dera olvidar tudo o que fui, para não ser,
para cobardemente não ser, só um bocadinho, só aqui.
Deixem-me não ser: rosa púpura, estrela invejosa, feiticeiro dúbio, todos!!!
Deixem-me ser invísivel, deixem-me não ser... é só o que eu quero, só um bocadinho,
só aqui.
2004/10/11
Estou por aqui a sorrir.... Ainda te lembras? De como te conheci naquele dia de chuva infernal? De como nos tornámos próximos? De como fomos testemunhas dos suspiros um do outro? Conhecemo-nos naquele dia, na sala de aula. O professor rabiscava já algumas linhas no quadro, eu estava na última fila, entraste e emulsionaste o teu sorriso, o mesmo que muitas vezes viria a varrer as sombras do meu espírito.
Às vezes vou na rua, nos autocarros e começo a prestar atenção a conversas, ouço muitas vezes por aí que nos dias de hoje já não se "fabricam histórias de amor como antigamente". Interrogo-me o que as pessoas querem dizer com isto? já não sabem os jovens o que é o "amor verdadeiro". Já não têm os jovens que ultrapassar barreiras sociais porque estas são mais ténues, já não passam eles grandes privações, já não precisam eles de se esconder. Será mesmo tudo mais simples? Vivemos num mundo de divórcios, de ligações fortuitas, algumas até levianas... não me cabe analisar o porquê, mas constacto que os laços entre as pessoas são cada vez mais frágeis. Muitas pessoas sobrevalorizam a sua individualidade o seu "eu", em detrimento da partilha de bens como... o coração. Ouço muitas destas coisas, constacto-as, mas são todas elas como um eco ao fundo duma praia, ecos partilhados por rochedos elevados acima do mar, indiferentes.
As palavras jamais descreveriam as dimensões de como nós nos amámos, as palavras que abrangem todo o infindável, interminável, infinito sentimento que encerravamos dentro de nós. Jamaias encontraria lugar nas linhas deste blog, nem na soma de todas as linhas de todos os blogs concebidos e por conceber que refugiassem todas essas palavras.
Agora somos nós e o Outono, rodeados pelas folhas e pelo vento, pelos nossos beijos e pelas nossas carícias. Agora consinto em escrever isto. Tudo em mim é também o teu mundo e os teus olhos nos meus, muitos dias depois de termos conhecido o sorriso um do outro.
2004/09/17
Corres, corres, corres, sempre a correr sempre a arfar
nunca esgotas esse olhar dilacerante sobre os caminhos.
Não interrogas permanentemente, vais, corres.
Foges de fugir desse mundo insípido, cheio de presilhas imprevistas....
que desabotoas com frequência.
Tem que ser, nesses infernos cheios de "ques".
Porque é essa a meta, de quem corre, de quem salta de quem foge de fugir.
Esgalhas por entre cêntimos e por entre filas de espera.
Tens meio século e não podes continuar a correr, mas tu foges de fugir...
O coração é fraco já, está cansado, mas aguenta, tens cataratas mas mantens o teu olhar.
O teu filho, quer correr e quer voar e não pode, tens que o desencarecerar, mais um fecho que tens de abrir, mais uma ruga que acrescentas à tua expressão fatigantemente pálida.
Não és mais que um número escrito algures, um conjunto de algarismos aleatórios
que jazem em prateleiras ou pedaços de sílicio...
não fazes diferença por lá.
Mas sem esmorecer recusas-te a parar, até ao dia em que descobres que há mais um "que":
O "Porque". E então resolves andar por aí a somar "porques"... até que no conjunto, todos formam um "porque" que ninguém poderá deixar de escutar: "porque não"!
nunca esgotas esse olhar dilacerante sobre os caminhos.
Não interrogas permanentemente, vais, corres.
Foges de fugir desse mundo insípido, cheio de presilhas imprevistas....
que desabotoas com frequência.
Tem que ser, nesses infernos cheios de "ques".
Porque é essa a meta, de quem corre, de quem salta de quem foge de fugir.
Esgalhas por entre cêntimos e por entre filas de espera.
Tens meio século e não podes continuar a correr, mas tu foges de fugir...
O coração é fraco já, está cansado, mas aguenta, tens cataratas mas mantens o teu olhar.
O teu filho, quer correr e quer voar e não pode, tens que o desencarecerar, mais um fecho que tens de abrir, mais uma ruga que acrescentas à tua expressão fatigantemente pálida.
Não és mais que um número escrito algures, um conjunto de algarismos aleatórios
que jazem em prateleiras ou pedaços de sílicio...
não fazes diferença por lá.
Mas sem esmorecer recusas-te a parar, até ao dia em que descobres que há mais um "que":
O "Porque". E então resolves andar por aí a somar "porques"... até que no conjunto, todos formam um "porque" que ninguém poderá deixar de escutar: "porque não"!
2004/09/08
Chove na cidade onde penas de aves apressadas, em busca de abrigo, flutuam comandadas por um vento ameno. A chuva cai sem força mas cai convicta. Os autocarros deslizam nas ruas para que as pessoas possam chegar a algum lado. Um casal de gaivotas foge das turbulências do oceano, procurando o aconchego de um beiral. O vigor da água caída do céu escuro aumenta numa cadência típica dum crescendo musical...
Todo este cenário se reflecte em mim através de quatro pedaços de vidro que constroem uma janela. O edifício que me acolhe encerra décadas de lágrimas e sorrisos, de suspiros e de palpitações... de empenho árduo e suave boémia. Resguardo-me, aqui sentada, onde começou a Universidade do Porto, no edifício vulgarmente chamado “Leões”: uma alusão pertinente à fonte que banha a sua entrada principal. A fonte onde lamentações se afogaram e onde começaram algumas existências... águas onde couberam muitos mundos ansiosos de vida e conhecimento. Caminho pelos corredores imensos, que já deixaram de ser labirínticos, e estórias renascem com palavras repletas de esperança. Recantos sensuais onde começaram longas uniões. Bancos onde escorreram prantos de desânimo e que ouviram repetidos cânticos de orgulho. Estes locais que somados me têm ajudado a ser um pouco maior e que recordarei com as palavras, os aromas e a sensação de frio no Inverno. É reconfortante estar aqui, encostada a este granito secular, a esta janela enriquecida pelo mundo, pois cada murmúrio de existência neles gravado amplifica cada segundo dos meus horizontes tremidos.
Todo este cenário se reflecte em mim através de quatro pedaços de vidro que constroem uma janela. O edifício que me acolhe encerra décadas de lágrimas e sorrisos, de suspiros e de palpitações... de empenho árduo e suave boémia. Resguardo-me, aqui sentada, onde começou a Universidade do Porto, no edifício vulgarmente chamado “Leões”: uma alusão pertinente à fonte que banha a sua entrada principal. A fonte onde lamentações se afogaram e onde começaram algumas existências... águas onde couberam muitos mundos ansiosos de vida e conhecimento. Caminho pelos corredores imensos, que já deixaram de ser labirínticos, e estórias renascem com palavras repletas de esperança. Recantos sensuais onde começaram longas uniões. Bancos onde escorreram prantos de desânimo e que ouviram repetidos cânticos de orgulho. Estes locais que somados me têm ajudado a ser um pouco maior e que recordarei com as palavras, os aromas e a sensação de frio no Inverno. É reconfortante estar aqui, encostada a este granito secular, a esta janela enriquecida pelo mundo, pois cada murmúrio de existência neles gravado amplifica cada segundo dos meus horizontes tremidos.
2004/09/05
2004/08/30
Um novo mundo onde o tempo é senhor de escravos do dia-a-dia.
Não costumo tolerar este tipo de frases, que nascem em análises feitas por mim, igualmente escrava e com sentimentos por vezes tão vis. Mas se as palavras me chegam até às mãos, que lhes fazer? Calá-las e emendar o que sinto? Ou deixá-las acamadas dentro de mim, esquecendo que um dia foram de alguém?
É assim, mesmo sem virtude, mas com voz, que venho denunciar: numa altura em que bastantes pessoas suprimiram várias das necessidades inerentes à sua própria condição humana (algumas até pensar). O fulcral, o sangue da vida, parece extinguir-se! E com lágrimas, como gotas sinistras, em sinal de que algo está em falta, chora-se. Chora-se, não por dor, nem por amor, mas por falta de tudo isto. Existe mesmo alguma água no mundo pior do que estas lágrimas salgadas? Haverá sal no mundo, mais amargo que este pranto? Nem todos são assim, nem todos são. É na relatividade que encontro recantos de aconchego.
Não costumo tolerar este tipo de frases, que nascem em análises feitas por mim, igualmente escrava e com sentimentos por vezes tão vis. Mas se as palavras me chegam até às mãos, que lhes fazer? Calá-las e emendar o que sinto? Ou deixá-las acamadas dentro de mim, esquecendo que um dia foram de alguém?
É assim, mesmo sem virtude, mas com voz, que venho denunciar: numa altura em que bastantes pessoas suprimiram várias das necessidades inerentes à sua própria condição humana (algumas até pensar). O fulcral, o sangue da vida, parece extinguir-se! E com lágrimas, como gotas sinistras, em sinal de que algo está em falta, chora-se. Chora-se, não por dor, nem por amor, mas por falta de tudo isto. Existe mesmo alguma água no mundo pior do que estas lágrimas salgadas? Haverá sal no mundo, mais amargo que este pranto? Nem todos são assim, nem todos são. É na relatividade que encontro recantos de aconchego.
2004/08/26
De mansinho, numa névoa urbana com cheiro a maresia, as sensações chegaram em paralelo para nós e para o mundo distraído. Apareceram tanto para mim como para ti, para mim no sorriso e para ti nas palavras. E, então, falaste-me, para que eu escutasse sem poder elevar a atenção a outros sons. A tua voz tocou na minha pele arrepiada e eu sorri-te o que me disseste. Porque a sorrir pensei mostrar-te, com os olhos inseguros, o que eu estava segura de sentir. Ao passo que era denunciada por tudo em meu redor que sentia comigo: o vento, o mar a olhar de esguelha, o veludo disfarçado das nossas mãos entrelaçadas. Foi nesse instante, já longínquo, em que eu quis ser tudo, que eu escolhi que o mundo ia caber no teu olhar...
2004/08/04
Porquê não sei. Talvez essa seja mais uma pergunta sem sentido. O porquê não sei, de facto, mas perdi-me no meio de tudo isto: que era suposto ser vivido e ser sentido. Limitei-me a ir indo, sem grandes precipitações mas quando dei por mim, uma a uma, as pessoas tinham ficado para trás. Estava só e tudo em meu redor não era senão uma redonda capa de breu na qual eu me embrenhava sem qualquer receio.
E agora que me apetece voltar? Agora depois de ter entornado muitas das minhas lágrimas, que caminhei tanto que o fôlego começa a faltar-me, agora o que farei?
E agora que me apetece voltar? Agora depois de ter entornado muitas das minhas lágrimas, que caminhei tanto que o fôlego começa a faltar-me, agora o que farei?
Não hesito demasiado. Faço aquilo que alguns momentos me ensinaram até hoje: rastejo pelos sorrisos que me acolhem, limpo algumas das lágrimas que vejo chorar sem me dar conta que estou profundamente vazia. Do mais triste é sentir que cumpro a minha tarefa: existo. Sob que forma, se bem ou se mal, nem sequer questiono muito. Está demasiado apertado o nó desta gravata que todos os dias ato à minha garganta. Aperto-o bem para que ninguém ao querer arranjar-mo me sufoque. Aperto-o bem para calar estes gritos pavorosos de dor que estoiram dentro de mim. Está demasiado para eu continuar a existir sem ser nada. E peço a quem nunca assim se sentiu que venha aqui e se sente ao meu lado e me ofereça umas palavras coloridas num dia qualquer inesperadamente.
2004/07/24
Todo o conjunto de vivências que faz de alguém que escreve alguém que escreve, poderá um dia tornar-se muito insuficiente. Ou poderá sempre ter sido insuficiente, mas até a um determinado ponto permitir a alguém que escreve continuar a fazê-lo. Talvez nem sequer seja humano alguém achar que todas as suas vivências são suficientes, caso contrário acusa-se morte imediata, do espiríto.
Esta dissertação, nem conclusão tem sequer, apenas culmina numa ideia prévia de que reinventarmo-nos é preciso. Pois então, que assim seja.
PS: Vou tirar umas férias pequeninas :)
Esta dissertação, nem conclusão tem sequer, apenas culmina numa ideia prévia de que reinventarmo-nos é preciso. Pois então, que assim seja.
PS: Vou tirar umas férias pequeninas :)
2004/07/17
0:58
ição... ambição, disposição, destruição, fruição. E são estas as letras que se juntaram aqui, acredito que por acaso.
1:05
Encontro-me numa fase um pouco sombria. Se eu fosse uma artista diria que estou sem inspiração. Nestes últimos tempos, direccionei tudo para um só fim e, quando isto acontece, sinto que todo um mundo passou por mim sem que eu me apercebesse. E passou... eu estava encerrada no meu objectivo imóvel. Não o agarrei, não como eu queria. Não tenho nada para partilhar, nem existe ninguém com quem eu pudesse partilhar o que quer que fosse. Partilho o autocarro, a chuva, o mar, o cheiro de terra húmida, mas não partilho a ideia que tenho de tudo isto. Encerrei-me sem que ninguém me obrigasse a fazê-lo e detesto isso. Arrepio-me comigo, velha, cansada, procurando um cantinho de paz no Mundo... Onde fui eu buscar isto? Esta falta de ambição de sonho!?
1:17
Intrigada com as últimas palavras, ando à deriva por entre a disposição dos meus dedos pelas frases que traço mentalmente. Afasto-as.
1:18
Um dia cheguei a casa e ouvi um grito, eras tu... tu... tu... sempre tu... foi há tanto tempo! (Agora as palavras estão a chegar-me fluidas, mas sem regras nem lugar certo.) Corria, dum lado para outro, agachava-me nos cantos, respirava fundo, escutava o meu coração doente de tanto bater, muito batia muito, às vezes não conseguia respirar. Os gritos somavam-se, multiplicavam-se e o meu coração galgava até à minha garganta. Só ia lá quando achava que alguém ia morrer, morrer mesmo. E não estariamos já todos mortos naquela altura? Depois eram as lágrimas e as conversas, eu não percebia as conversas, mas percebia as lágrimas. Eras sempre tu... Apetecia-me rasgar-me da minha própria vida, arrancar os meus ouvidos, engasgar-me nos gritos que tinha que engolir, sair a correr e nunca mais voltar... mas fiquei lá. Eras tu... sempre tu... nunca sabia quando ias precisar de mim. Afinal na altura das lágrimas e das conversas, depois dos gritos, depois do medo, era eu que te dava as minhas mãos geladas. Porque não havia mais ninguém, nem mais mesa, nem mais louça. Destruição.
Um dia viemos embora e renascemos, o que quer que isso tenha significado.
1:27
Mais tarde, chegaram outros dias. Os dias em que o medo e as lágrimas se transformaram em sorrissos. As conversas... nessa altura não me lembrava delas. Éramos apenas nós, e a fruição de todos os cantinhos a que o nosso amor nos levava.
1:31
Afinal as letras não se juntaram aqui por acaso.
1:34
"E são estas merdas" que num dia como o de hoje me farão apagar este blog. Hoje não escrevo mais. Não vou alongar o post mais ridículo e ao mesmo tempo mais "isto" que alguma vez escrevi.
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